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Por que a cognição pode ser mais do que processamento mental?

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Redação O Antagonista
6 minutos de leitura 23.04.2026 17:27 comentários
Cultura

Por que a cognição pode ser mais do que processamento mental?

Estudo propõe que mente e ambiente formam uma relação ativa, abrindo caminho para nova leitura de traços de personalidade e psicopatologia

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Um artigo publicado no Journal of Humanistic Psychology defende que a cognição humana não acontece “dentro” do cérebro, como um sistema de processamento de informações, mas emerge do contato contínuo entre o corpo e o ambiente — um processo que o autor denomina “garra” (envolvimento ou aderência: “grip”, em inglês) sobre o mundo.

O psicólogo Garri Hovhannisyan, responsável pelo estudo, propõe uma ruptura com os modelos computacionais que dominam a ciência cognitiva desde meados do século XX, e estende sua proposta até o campo da personalidade e da saúde mental.

O limite do modelo computacional

Desde a chamada revolução cognitiva, a ciência da mente adotou como referência a metáfora do computador: o cérebro processaria símbolos, armazenaria representações e executaria cálculos internos para produzir comportamento inteligente. Avanços na inteligência artificial e na modelagem formal pareciam confirmar essa visão.

Hovhannisyan, porém, aponta uma lacuna persistente nessa abordagem: ela não consegue explicar de modo satisfatório como organismos percebem e navegam o mundo em tempo real. O autor recorre a um contraste para tornar o problema concreto — foi mais fácil construir máquinas capazes de superar gênios no xadrez do que programá-las para segurar um ovo sem quebrá-lo.

O gesto de pegar um ovo envolve ajustes motores e perceptivos de uma complexidade que os modelos abstratos não capturam. O xadrez, por outro lado, é um domínio fechado, governado por regras precisas e passível de formalização. A comparação indica que o que há de mais distintivo na cognição humana pode estar exatamente onde os modelos computacionais são mais frágeis.

O que é “garra” e como ela funciona

Para propor uma alternativa, o artigo retoma a tradição fenomenológica, de pensadores como Edmund Husserl e Maurice Merleau-Ponty. Essa corrente filosófica desloca o foco dos conteúdos mentais abstratos para a experiência vivida: em vez de perguntar como a mente representa um mundo pré-dado, pergunta como o mundo se revela por meio da percepção corporal.

Nessa perspectiva, a percepção não é passiva. Ela é moldada pelas capacidades do corpo, pelos objetivos e pela situação de cada pessoa. O mundo não se apresenta como um conjunto neutro de objetos, mas como um campo de possibilidades para a ação. Uma xícara, por exemplo, não é percebida apenas por suas propriedades físicas, mas como algo a ser pegado, sustentado ou bebido.

É nesse contexto que Hovhannisyan introduz o conceito central do artigo: “Ter uma mente não é processar informação como um computador, mas alcançar uma espécie de ‘garra’ sobre o mundo tal como ele se apresenta na percepção”, escreve o autor. “A garra ótima se refere à nossa capacidade de fazer isso bem — tornarmo-nos mais sintonizados, mais responsivos e mais efetivamente situados em nosso engajamento com o mundo”.

Para tornar o conceito mais preciso, Hovhannisyan o aproxima da noção biológica de aptidão (“fitness”): assim como a aptidão não é uma propriedade do organismo isolado nem do ambiente isolado, mas emerge da relação entre os dois, a garra é uma propriedade relacional — ela diz respeito ao grau de ajuste entre uma mente encarnada e a situação que ela enfrenta. Quando esse ajuste é fluido e responsivo, a garra é boa; quando ele se rompe, a cognição se deteriora.

Portanto, de acordo com o texto, “cognição é algo que fazemos ativamente no mundo. É menos como resolver problemas lógicos ou matemáticos, e mais como tocar efetivamente uma música em um instrumento”, afirma o pesquisador.

Percepção varia conforme quem percebe

Uma das implicações do modelo é que o mesmo ambiente se apresenta de formas distintas para pessoas diferentes, conforme suas habilidades, preocupações e projetos. Hovhannisyan ilustra o ponto com dois exemplos: um sorriso pode ser percebido por um leigo como gesto de simpatia, enquanto um dentista identifica nele sinais de alterações na mordida ou início de cárie.

De modo semelhante, uma sala de aula universitária pode aparecer a uma criança como espaço para brincar e escalar, e a um estudante adulto como ambiente que exige concentração prolongada.

“O mundo que experimentamos não é simplesmente ‘dado’ da mesma forma para todos. Ele é, em sentido importante, encenado — trazido à existência por nossas formas de engajamento, moldado por nossas habilidades, preocupações e projetos”. Esse ponto, segundo ele, é o que os modelos tradicionais não conseguem capturar ao se concentrar no processamento interno de informações.

Personalidade como estilo de garra

Hovhannisyan estende o conceito ao campo da personalidade. Traços como extroversão ou neuroticismo, em vez de serem tratados como disposições internas fixas, passam a ser compreendidos como “estilos de garra” — padrões duradouros de como cada indivíduo se engaja com o ambiente e o interpreta ao longo do tempo.

Dessa reformulação decorre uma hipótese sobre psicopatologia. “Ninguém tem uma personalidade ‘perfeita’. Cada um de nós é bem adaptado a certos contextos e menos a outros. À medida que as situações mudam, elas podem ultrapassar nosso alcance adaptativo, levando a uma perda de garra”, afirma o pesquisador. Essa perda pode ocorrer quando uma situação exige mais de um traço do que a pessoa consegue oferecer, ou menos do que ela tende a expressar.

O artigo aponta como direção promissora para pesquisas futuras o estudo sistemático desses desajustes recorrentes entre traços de personalidade e situações. Compreendê-los poderia ajudar a explicar os padrões problemáticos persistentes nos quais pessoas se encontram presas e oferecer uma abordagem mais dinâmica do papel da personalidade na psicopatologia.

Desafios para a pesquisa empírica

O próprio autor reconhece os obstáculos de transpor um conceito filosófico para a prática científica. “Um dos principais desafios é que a ‘garra ótima’ tem origem na fenomenologia, uma tradição filosófica, e conceitos da filosofia nem sempre se traduzem facilmente para a ciência empírica”, admite Hovhannisyan.

Torná-la mensurável implica risco de simplificação excessiva, com perda do que o conceito tem de mais valioso: sua capacidade de capturar a estrutura qualitativa da experiência vivida. O objetivo não é substituir os modelos cognitivos existentes, mas complementá-los de forma “filosoficamente fiel e empiricamente rigorosa”.

O artigo integra uma edição especial do periódico em homenagem ao psicólogo Brent Dean Robbins, cujo trabalho influenciou a extensão do conceito de garra ótima para as relações interpessoais — incluindo a proposta de que o amor ágape pode ser compreendido como uma forma de sintonia ótima nas relações sociais.

O artigo “Embodied Cognition is a Matter of Grip: Humanistic Cognitive Science and the Phenomenology of Attunement” pode ser lido na íntegra.

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