Pio XII sabia da Shoah? 5 anos de pesquisa nos arquivos do Vaticano
Em 2 de março de 2020 o Papa Francisco abriu os arquivos vaticanos. Após cinco anos, o que as pesquisas revelam sobre o silêncio de Pio XII?
Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de pessoas apelaram ao Papa Pio XII para que se posicionasse contra as atrocidades cometidas pelos nazistas. No entanto, a resposta que recebiam era sempre a mesma.
“O que ficará de Pio XII será seu silêncio em relação a esses atos. A história o lembrará como o Papa que não falou.”
Essa afirmação foi feita por Sebastian Haffner após a estreia da peça de teatro “O Representante”, escrita por Rolf Hochhuth, em 7 de abril de 1963.
Ainda hoje, o debate sobre Pio XII, um dos Papas mais controversos do século XX, permanece sem resolução clara, especialmente no que diz respeito ao seu “silêncio”.
Seus opositores o rotulam como “o Papa de Hitler”, enquanto seus defensores o exaltam como um dos maiores benfeitores do povo judeu durante a Shoah.
Questões cruciais surgem: Pio XII estava ciente da magnitude do Holocausto? O silêncio que o caracteriza começou a ser questionado apenas após sua morte, ou ele já enfrentava pressões para se pronunciar durante a guerra? Seu silêncio era motivado por sentimentos antissemitas? Ele tinha consciência das consequências de sua falta de pronunciamento?
Os arquivos do Vaticano
Por muitos anos, não foi possível esclarecer essas questões devido à inacessibilidade dos arquivos do Vaticano referentes ao período de seu papado (1939-1958).
Os pesquisadores dependiam de documentos oficiais e da coleção “Atos e Documentos da Santa Sé Relativos à Segunda Guerra Mundial”, composta por mais de cinco mil itens, compilados na década de 1970 para defender Pio XII.
A situação mudou drasticamente em 2 de março de 2020, quando o Papa Francisco abriu os arquivos vaticanos.
Agora, milhares de caixas contendo milhões de páginas da época estão disponíveis para pesquisa. Levará décadas para analisar essa vasta quantidade de documentos e compará-los com as informações previamente conhecidas.
“Judeus. Situação terrível”
Embora seja prematuro elaborar monografias históricas definitivas sobre o “silêncio de Pio XII”, é possível apresentar algumas hipóteses baseadas nas novas fontes disponíveis após cinco anos de pesquisa intensiva.
As tentativas de justificar o silêncio do Papa como uma consequência da falta de informações sobre o Holocausto são refutadas pelos documentos vaticanos.
Ele recebeu relatos detalhados sobre a perseguição aos judeus na Europa através de três fontes principais: relatórios dos núncios e delegados nos países afetados, cerca de 10 mil cartas de apelo escritas por judeus pedindo ajuda entre 1939 e 1945, e uma rede secreta de informações jesuítas coordenada pelo padre Robert Leiber.
Um exemplo notável é uma carta datada de 14 de dezembro de 1942, onde Lothar König informa sobre os horrores dos campos de extermínio, incluindo Auschwitz.
No final daquele ano, havia conhecimento no Vaticano sobre os campos de morte e a situação desesperadora dos judeus na Polônia. Notas internas do Secretariado de Estado confirmavam a gravidade da situação: “Judeus. Situação terrível.”
O silêncio
Os apelos para que Pio XII se manifestasse publicamente contra os crimes nazistas não surgiram apenas após a guerra.
Documentos mostram uma quantidade significativa de solicitações insistentes feitas durante o conflito.
Diplomatas acreditados junto ao Vaticano, cardeais e até mesmo rabinos pressionaram o Papa para uma intervenção pública em defesa dos perseguidos.
No entanto, as respostas eram frequentemente padronizadas: “A Santa Sé sempre se preocupou com os judeus perseguidos e continuará fazendo isso”, sem qualquer detalhe sobre as ações tomadas.
A pressão pública aumentava com apelos diretos ao Papa, muitos dos quais exigiam que ele abandonasse sua postura neutra.
Em um exemplo emblemático, um escritor advertiu que a neutralidade do chefe político do Vaticano não deveria silenciar o líder espiritual das massas.
Pio XII nunca fez uma condenação pública clara dos crimes nazistas ou expressou apoio explícito às vítimas judias.
Nem “papa de Hitler” nem herói do judaísmo
As razões frequentemente citadas para seu silêncio incluem alegações sobre antissemitismo ou preconceitos pessoais; no entanto, essa interpretação falha em considerar suas reações diante de outras atrocidades cometidas durante a guerra.
Por exemplo, ele também permaneceu em silêncio durante os assassinatos em massa dos católicos poloneses pelos nazistas entre 1939 e 1940. Pedidos semelhantes pela condenação desse genocídio foram ignorados.
A escolha deliberada do Papa por uma postura neutra é frequentemente vista como um fator determinante para sua inação diante da Shoah.
Ele temia que suas declarações pudessem ser manipuladas por potências em guerra e queria evitar ser percebido como tendencioso em favor dos Aliados ou contra os alemães.
Outro argumento frequentemente mencionado é que protestos públicos poderiam agravar a situação dos judeus sob domínio nazista e dificultar qualquer assistência secreta oferecida pelo Vaticano.
Pio XII expressou preocupação com as repercussões negativas que poderia enfrentar ao falar abertamente sobre as atrocidades nazistas.
Em 1940, ele comentou ao embaixador italiano no Vaticano que sentia necessidade urgente de denunciar os crimes, mas estava hesitante devido ao medo das retaliações contra os inocentes.
Dúvidas persistem sobre sua consciência em relação ao seu silêncio e suas implicações. Ele não era um homem aberto e suas reflexões muitas vezes permaneciam ocultas em seus escritos; ainda assim, entrelinhas revelam que sua posição o incomodava profundamente e ele não era indiferente ao sofrimento alheio.
Os documentos atualmente disponíveis não permitem simplificação. De acordo com eles, não parece correto classificá-lo nem como “o Papa de Hitler” nem como herói do judaísmo durante a Shoah.
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Comentários (1)
Marcelo Tolaine Paffetti
19.03.2025 13:35Pio XII tentou ajudar judeus antes até do início da guerra. A perseguição a eles já estava acontecendo, o mundo já sabia e o papa tentou conseguir o exílio dessas pessoas, nas o mundo livre fechou suas portas, a não ser um único país que aceitou um resgate de inexpressivas três mil pessoas: o Brasil.