O que os livros ainda não lidos dizem sobre você?
Acúmulo de obras em estantes estimula a humildade intelectual e o aprendizado contínuo; compreenda os conceitos de “antibiblioteca” e “tsundoku”
O filósofo, semiólogo e romancista tardio (de estrondoso sucesso comercial) Umberco Eco costumava dividir as pessoas em duas categorias: aquelas que, visitando sua biblioteca com os cerca de 30 mil livros distribuídos em dezenas de estantes, se impressionavam e, entusiasmadas, corriam os olhos até onde a vista alcançasse; e aquelas outras que, desconfiadas com a quantidade de volumes, perguntavam: “Mas você já leu tudo?”.
É evidente que nem mesmo o erudito italiano teria lido tudo, mesmo se passasse a vida inteira fazendo só isso. Mas a pergunta irritava Eco não pelo que nela havia de ingênuo, mas por que sugeria um espírito, na falta de termo melhor, “produtivista” – ou seja, livros têm de ter lidos, como se fossem objetos para consumo. Têm de ser consumidos. Mas não é bem assim.
O que pra muita gente pode parecer uma falha de organização, preguiça ou tendência a acumular, para alguns pensadores é um sinal de vigor intelectual. Nassim Nicholas Taleb, por exemplo, autor de A Lógica do Cisne Negro, argumenta que as obras ainda não exploradas, justamente por isso, valem mais do que as obras já conhecidas.
A ideia de “antibiblioteca” é um convite à humildade intelectual
Foi n’A Lógica do Cisne Negro que Taleb apresentou o conceito de ‘antibiblioteca’, inspirado na observação Umberto Eco, sobre os visitantes que presumiam que a grandiosidade de sua biblioteca refletia todo o conhecimento acumulado pelo anfitrião.
Eco, em uma estimativa pessoal, calculou que um indivíduo leria apenas cerca de 25.200 livros ao longo de uma vida, mesmo lendo um por dia dos dez aos oitenta anos. Essa quantidade, lamentou ele, era insignificante em comparação ao milhão de obras que uma biblioteca universitária típica pode abrigar.
Inspirado por Eco, Taleb deduz que “livros [já] lidos são muito menos valiosos do que os livros [ainda] não lidos”. Ele propõe, então, que uma biblioteca pessoal deve “conter tanto do que você não sabe quanto seus meios financeiros, taxas de hipoteca e o mercado imobiliário atualmente restrito permitirem”.
Essa coleção de obras inéditas para o leitor, à qual Taleb se refere como ‘antibiblioteca’, serve como um lembrete constante do conhecimento que ainda precisa ser adquirido. E nossa ignorância é vasta como é vasto o próprio mundo.
O valor da ‘antibiblioteca’ consiste em sua capacidade de desafiar essa autopercepção, funcionando como um incômodo lembrete de nossa ignorância pessoal. Taleb argumenta: “Tendemos a tratar nosso conhecimento como propriedade pessoal a ser protegida e defendida. É um ornamento que nos permite ascender na hierarquia”.
Estantes repletas de ideias inexploradas convidam à leitura e ao aprendizado, impedindo a arrogância de se presumir sábio o suficiente. Uma biblioteca “conquistada”, sem volumes a serem explorados, é um “apêndice para inflar o ego”, decoração para impressionar as visitas, e não um recurso vivo para o aprendizado.
Um termo japonês: “tsundoku”
Embora o termo antibiblioteca seja curioso, a língua japonesa oferece uma alternativa para descrever o hábito de acumular livros ainda não lidos: a expressão “tsundoku”. A palavra é uma fusão de “tsunde-oku”, que significa “deixar as coisas se acumularem”, e “dokusho”, que denota “ler livros”.
Sua origem provável é no século 19 e, por ironia, remetia à sátira sobre educadores que possuíam livros, mas não os liam. Mas, como toda língua, o termo foi “recarregado” com outro valor semântico. Na cultura japonesa de hoje, tsundoku já não traz consigo o mesmo estigma.
Os livros que você não leu estão à sua espera e, para a escritora Jessica Stillman, os livros não lidos funcionam como um contraponto ao efeito Dunning-Kruger – viés cognitivo que leva indivíduos com pouca informação a superestimar sua proficiência. Em português: quanto mais burro ou ignorante o sujeito é, mais inteligente e bem informado ele se acha, justamente porque é burro ou ignorante demais para perceber que… eu conto ou você conta?
Como a gente costuma desviar a atenção daquilo que questiona nossas certezas, a presença de livros não lidos deveria servir de lembrete: “Todos os livros que você não leu são um sinal de sua ignorância. Mas se você sabe o quão ignorante você é, você está muito à frente da vasta maioria das outras pessoas”.
Para saber mais
Em 2022, foi lançado na Itália o documentário Umberto Eco: La biblioteca del mundo, dirigido por Davide Ferrario. Vale a pena conferir (de graça) aqui. Ative as legendas automáticas no YouTube.
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