O que diz o papa Leão em sua primeira encíclica?
Documento de 105 páginas conecta inteligência artificial a temas como guerra, migração e desigualdade
Na manhã desta segunda-feira, 25, exatamente um ano após assumir o comando da Igreja Católica, o papa Leão XIV publicou sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas — “Magnífica Humanidade”, em tradução do latim.
O documento de 105 páginas estabelece como tema central a proteção da pessoa humana diante do avanço da inteligência artificial e traça as linhas que devem orientar o pontificado nos anos seguintes.
IA como instrumento, não como substituto
Na tradição católica, encíclicas são os textos de maior peso doutrinal de um papa — cartas dirigidas aos bispos e aos fiéis que expõem o pensamento oficial da Igreja. Ao escolher a inteligência artificial como pano de fundo de seu primeiro documento, Leão XIV sinaliza que o tema tecnológico será central em seu governo.
O papa parte de uma distinção que percorre todo o texto: a tecnologia não é, em si, uma adversária da humanidade, nem é “intrinsecamente má”.
O problema, segundo a encíclica, está no fato de que ela “nunca é neutra”, pois “assume as características daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”. Por isso, Leão defende que o desenvolvimento tecnológico precisa estar subordinado ao bem coletivo.
“A humanidade — em toda a sua grandeza e em todas as suas feridas — jamais deve ser substituída ou superada”, afirma o pontífice no documento.
O vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, disse à BBC que o texto tem como eixo o chamado princípio personalista: “O ser humano no centro e finalidade de todos os processos”, resume Domingues, que também dirige o Lay Centre, em Roma.
Para ele, trata-se de “um documento sobre a defesa da dignidade humana no contexto da sociedade da inteligência artificial” — não uma encíclica técnica sobre IA, mas uma reflexão doutrinária que usa a tecnologia como ponto de partida.
Trabalho, guerra, migração e regulação
O alcance do documento vai além das discussões sobre algoritmos. Leão XIV aborda a dignidade do trabalho, a justiça social, os conflitos armados e os direitos dos migrantes dentro do mesmo arcabouço: o da centralidade humana ameaçada por forças que escapam ao controle democrático.
No campo dos conflitos, o papa alerta que “a revolução digital está mudando a natureza dos conflitos” e que as decisões sobre vida e morte tornam-se cada vez mais distantes de qualquer julgamento humano direto.
“A inteligência artificial não remove a desumanidade intrínseca do conflito; ao contrário, pode apenas acelerar os conflitos e torná-los mais impessoais, reduzindo o limiar para o recurso à violência, transformando a defesa em previsão de ameaças e reduzindo as vítimas a dados”, escreve Leão.
Sobre migração, o pontífice defende não apenas o acolhimento dos que se deslocam, mas também o que chama de “direito de permanecer” — ou seja, a garantia de que ninguém seja forçado a deixar sua terra por falta de segurança ou condições de vida.
Na esfera digital, a encíclica alerta contra a concentração de poder nas mãos de poucas empresas e cobra supervisão pública e regulamentação das tecnologias. “Não basta ter uma inteligência artificial mais moral se a moralidade for determinada por poucos”, escreve o papa.
O documento defende ainda que discursos de ódio e desinformação sejam combatidos, e menciona o impacto ambiental das novas tecnologias como mais uma preocupação a ser enfrentada.
Diálogo com a tradição e programa de pontificado
Segundo o jornalista Alexandre Gonçalves, professor na Universidade de Illinois Urbana-Champaign e estudioso das implicações sociais da IA, a Magnifica Humanitas funciona como “um programa para o pontificado”.
Ao escolher essa temática para seu primeiro documento, Leão XIV se insere em uma linhagem que remonta ao papa que lhe emprestou o nome: Leão XIII, cujo texto Rerum Novarum, publicado há 135 anos, inaugurou a chamada doutrina social da Igreja, voltada então para os trabalhadores na era industrial.
A referência não é apenas simbólica. O documento dialoga diretamente com aquela tradição e a atualiza para um momento em que a transformação tecnológica coloca questões semelhantes às da Revolução Industrial — mas em escala e velocidade inéditas.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)