O êxodo silencioso nas igrejas da Alemanha
Igrejas Católica e Protestante perdem 1,1 milhão de membros na Alemanha em 2025, com desfiliações em massa e queda histórica de ordenações
As duas maiores denominações cristãs da Alemanha terminaram 2025 com perdas expressivas de fiéis. Dados divulgados na segunda-feira, 16, pela Conferência Episcopal Católica Alemã e pela Igreja Evangélica da Alemanha, apontam redução conjunta de 1,13 milhão de fiéis no ano anterior — resultado de desfiliações voluntárias, mortes e queda nos batismos.
A Igreja Católica somou 19,22 milhões de membros ao fim de 2025, o equivalente a 23% da população alemã, após perder cerca de 550 mil fiéis. O número de protestantes recuou em aproximadamente 580 mil, para 17,4 milhões. As desfiliações formais respondem pela parcela mais significativa do declínio nas duas instituições: 307 mil saídas no catolicismo e 350 mil no protestantismo.
O peso do imposto religioso
Na Alemanha, a filiação a uma das grandes igrejas implica o pagamento do Kirchensteuer — um tributo descontado diretamente na folha de salários e sobre os rendimentos de capital. A alíquota corresponde a uma sobretaxa de 8% ou 9% calculada sobre o imposto de renda. Para deixar de pagar, o contribuinte precisa formalizar a saída da instituição religiosa, o que transforma a desfiliação em um ato administrativo e financeiro, não apenas de foro íntimo.
Esse mecanismo amplifica, na Alemanha, uma tendência de afastamento religioso comum a outros países europeus. A saída passa a ter motivação objetiva e mensurável, o que explica em parte por que o país apresenta volumes de desfiliação tão elevados em termos absolutos.
O presidente da Conferência Episcopal Católica, o bispo Heiner Wilmer, de Hildesheim, reconheceu o quadro ao comentar os dados: “As estatísticas são um reflexo atual da Igreja”, afirmou. Wilmer avaliou como positivo o leve aumento na frequência aos cultos e a estabilidade nos números de primeiras comunhões e crismas, mas lamentou o volume de saídas.
Diminuição de batismos e ordenações
O número de batismos nas duas igrejas somou 214 mil em 2025. Entre os católicos, houve queda de mais de 7 mil em relação ao ano anterior, totalizando 109 mil — ante uma média superior a 220 mil anuais registrada 25 anos atrás. Na Igreja Evangélica, o total de batismos ficou em torno de 105 mil, com estabilidade em relação a 2024.
O declínio mais acentuado está na formação de novos sacerdotes católicos. Em 2025, apenas 25 homens foram ordenados padres no país — o pior resultado já registrado. Em 2024, haviam sido 29; em 2023, 35; e em 2000, 154. A restrição do sacerdócio ao público masculino, aliada à exigência do celibato, é apontada como fator de baixa adesão às vocações.
A retração de paróquias acompanha a queda de fiéis. O levantamento de 2025 contabilizou 8.997 paróquias ativas, redução de 294 em relação ao ano anterior. Diversas dioceses promoveram fusões ou simplesmente encerraram unidades com poucos frequentadores, deixando alguns templos sem uso.