O Brasil que não lê a não ser na Bienal
Enquanto revistas e cadernos de cultura ficam magrinhos ou desaparecem, mercado editorial enfrenta encolhimento histórico
Apesar do recente entusiasmo com a última Bienal do Livro, o setor editorial brasileiro registrou uma significativa retração de 44% em seu faturamento real, sem contar as vendas governamentais, no período de 2006 a 2024. Se consideradas todas as vendas, incluindo as transações com o governo, a queda no mesmo intervalo foi de 30%.
Os dados são da série histórica da Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, elaborada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData.
Se vale ou não para consolo fica a critério do leitor (ele existe?), mas o segmento digital, que abrange e-books e audiolivros, apresentou um crescimento de 200% em seis anos, impulsionando pela primeira vez o desempenho geral da indústria em 2024.
Panorama da retração e desafios setoriais
A contração do mercado em termos reais tem sido uma constante, com 2024 marcando o quinto ano consecutivo de recuo nas vendas ao mercado. De acordo com Dante Cid, presidente do SNEL, as expressivas quedas nos subsetores de CTP (científicos, técnicos e profissionais) e didáticos foram determinantes nesse declínio geral.
Mas a retração não se limitou a esses segmentos, refletindo um quadro preocupante para um país que precisa elevar seus índices de leitura para combater desigualdades sociais por meio da educação. Para Sevani Matos, presidente da CBL, esses números são um alerta urgente para a necessidade de políticas públicas consistentes que fomentem a leitura, a produção editorial e a valorização do livro no Brasil.
A trajetória do digital e a dinâmica dos subsetores
O conteúdo digital, apesar de representar 9% do mercado atualmente, tem demonstrado vitalidade, com seu preço real diminuindo 30% nos últimos seis anos. A coordenadora de pesquisas da Nielsen BookData, Mariana Bueno, observa que a última década foi marcada por desafios e transformações variadas entre os subsetores.
Enquanto obras gerais conseguiu recuperar preços, aproximando-se dos níveis de 2010 e alcançando 39% do faturamento do mercado em 2024, o subsetor de didáticos sofreu uma queda de 51% nas vendas ao mercado desde 2006, sendo o principal fator para o desempenho negativo da indústria em 2024.
O segmento de religiosos, embora menos impactado pelas crises, enfrenta dificuldades para reajustar seus preços. Já as editoras de CTP, que registraram uma queda de 61% no faturamento desde 2006, têm encontrado sucesso na estratégia voltada para o formato digital.
Em tempo: livros para colorir (para “adultos”) não contam (ou não deveriam contar).
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)