O Brasil é o país do meme? Uma exposição prova que sim
Mostra no CCBB explora trajetória, impacto e significado dos memes na sociedade contemporânea, com foco na identidade brasileira
Começou no dia 27 de agosto e vai até o dia 3 de novembro, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, a exposição “MEME: no Br@sil da memeficação”. A mostra, que passará também por Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, propõe uma análise sobre a memeficação como um recurso narrativo do Brasil atual.
Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, em parceria com o perfil @newmememuseum, são os responsáveis pela curadoria. O projeto reúne mais de 800 itens, incluindo memes, vídeos, pinturas, esculturas, figurinos e instalações interativas. O Brasil é o primeiro país a organizar uma exibição de grande porte dedicada à arte dos memes. A entrada é gratuita, com retirada antecipada de ingressos.
A linguagem dos memes e a identidade nacional
A exposição se organiza em seis núcleos temáticos para investigar o percurso dos memes, desde sua origem até sua utilização em discussões (ou rinhas) políticas.
Um dos eixos, “Ao pé da letra”, examina as interpretações inesperadas que surgem da interação entre texto e imagem nos memes.
“A hora dos amadores” explora o surgimento dos memes em conjunto com a internet e a visibilidade conferida a indivíduos comuns.
O núcleo “Da versão à inversão” investiga a proliferação de memes como cópias que subvertem conteúdos originais, gerando humor.
Já “O eu proliferado” reflete sobre a disseminação do indivíduo nas plataformas digitais e os efeitos da superexposição.
Um andar da mostra apresenta um “Museu do Homem da Internet”, com vitrines que exibem estereótipos masculinos como o red pill e o faria limer.
Clarissa Diniz defende que o objetivo da apresentação é provocar reflações sobre a inclinação memética do Brasil (alguém duvida que nossa capacidade de produzir memes já superou nossa capacidade de produzir centroavantes?). Diniz quer saber se a nossa vocação começou com os memes digitais, ou se tem raízes mais antigas e analógicas, em manifestações como o Carnaval e bordões televisivos.
Ismael Monticelli diz que, “enquanto fazemos memes, os memes refazem o Brasil. A exposição parte da compreensão dos memes como uma linguagem viva, que afeta diretamente nossas formas de pensar, sentir e agir, transbordando os limites da internet”.
Os memes e o discurso político
Outro núcleo, “Combater ficção com ficção”, trata da função dos memes na polarização política e na radicalização do debate público.
O último segmento, “Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?”, propõe um debate sobre o papel e os significados dos memes, apresentando entrevistas com criadores brasileiros sobre suas percepções.
A utilização de memes na política brasileira ganhou destaque a partir de 2014, integrando a comunicação política de candidatos. Viktor Chagas, professor da UFF, observa que esse cenário de difusão de memes passou a ser denominado “memecracia” por alguns autores.
Chagas explica que o termo se refere à superficialização do debate político causada pela circulação de imagens e imaginários: “Em uma memecracia, os memes cumprem um papel, para o bem e para o mal. Ou seja: ao mesmo tempo que você tem um largo acesso à informação política, que chega a uma camada da população que antes não tinha acesso a essas pautas, por outro lado, isso se traduz num debate superficial. É uma faca de dois gumes”.
Clarissa Diniz não tem medo de uma apropriação política da exposição, dada a natureza polissêmica dos memes. Um meme diz qualquer coisa, pode ser adaptado a qualquer contexto e, por isso mesmo, pode ser usado contra e a favor de qualquer político ou projeto ideológico.
Que com meme fere, com meme um dia será ferido. É só esperar.
Afinal de contas: de onde vem esse tal de “meme”?
Por incrível que pareça, o conceito-zoeira preferido dos brasileiros tem origem nobre – na Grécia e na biologia evolucionista.
Trocadilho-junção com os termos “mimese” (do grego, imitação) e “gene” (obviamente de genética), a ideia de “meme” foi inventada em 1976 pelo biólogo Richard Dawkins, e propagada – como um meme – no bestseller O Gene Egoísta.
O meme é uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros). No que diz respeito à sua funcionalidade, é uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se.
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