Notas sobre a ‘mentalidade totalitária’
Psicólogos e cientistas sociais tentam compreender o que nos leva a renunciar à racionalidade e, muitas vezes, à própria liberdade
Seria possível identificar traços ou predisposições psicológicas que indicassem a propensão de tanta gente a aceitar ou promover regimes políticos totalitários? Os totalitarismos históricos – nazismo e comunismo são os exemplos mais representativos – seriam manifestações de uma “arquitetura” mental? Existiria algo como uma “mentalidade totalitária”?
O Dr. Noam Shpancer, professor universitário e psicólogo clínico, defende que sim. Em artigo na revista Psychology Today, ele dá exemplos da reiteração de um roteiro histórico de erosão cívica, mesmo no contexto democrático dos Estados Unidos.
As manifestações de tribalismo moral e a rejeição de quaisquer fatos, dados ou informações que contrariem a adesão ideológica, já nos fazem lembrar de movimentos autoritários de um passado não muito distante.
Essa dinâmica é alimentada pela propensão humana de mitigar o alto custo cognitivo da complexidade e da incerteza, buscando sempre a certeza, a pureza e a simplicidade, que proporcionam alívio psíquico e gratificação. Questionar (as próprias ideias ou crenças) cansa.
O imperativo psicológico da simplicidade
Psicólogos cognitivos e sociais tentam decodificar essa “arquitetura interna” da espécie humana. O que nos leva à renúncia da racionalidade e, muitas vezes, da própria liberdade? Esta predisposição é inerente à complexidade da existência humana. A armadilha é a seguinte.
Ansiamos por variedade, novidade e múltiplas opções; a diversidade é um vetor do próprio processo evolutivo; mas, ao mesmo tempo, o estado de incerteza é psiquicamente perturbador. A multiplicidade de escolhas e as indefinições desgastam a psique. Como resposta, de tempos em tempos, seja na vida pessoal, seja na vida coletiva, voltamos a querer simplicidade, pureza, conhecimento inequívoco.
Quando a “cacofonia” de um mundo fragmentado é percebida como ameaça, os indivíduos reagem querendo certezas. Precisamos saber o que fazer. Precisamos saber o que é o certo e o que é o errado, quem está certo e quem está errado. Os isentões que me desculpem, mas o maniqueísmo é fundamental.
O professor Alfonso Montuori, em um artigo de 2004 – notem: muito antes dos fenômenos políticos recentes e das redes sociais – articulou o conceito de “mentalidade totalitária” para elucidar esses aspectos da mudança de estado mental.
A ativação desse mindset é frequentemente orquestrada por facções que qualificam o cenário social como “emergência”. A identificação de uma ameaça urgente justifica a pressão para reprimir a crítica e eliminar a ambiguidade.
E o que a gente faz quando há uma emergência? Suspende o juízo e age o mais rapidamente possível. A emergência exige resposta ou adesão imediata. Aqueles que não se alinham são rapidamente condenados como traidores ou… antipatrióticos.
A mentalidade totalitária é instigada por um componente afetivo. A percepção de um ataque ou perigo – como a crença de que “eles estão vindo para nos machucar, nos substituir ou tomar nossos empregos” – gera excitação emocional.
Essa excitação se manifesta como indignação e medo, e é um precursor indispensável para a ação imediata. A sensação de emergência imposta restringe o espaço cognitivo. Na urgência, não temos tempo para contemplação, hesitação, debate ou a avaliação de nuances.
A complexidade do problema e a consequente dúvida sobre como resolvê-lo representam uma carga cognitiva elevada. A mentalidade totalitária – manejada por aqueles que a instrumentalizam – consiste na simplificação e na clarificação, necessárias à ação prática. Este processo é gratificante por ser sentido como um alívio da tensão psíquica. Primeiro a gente faz, depois a gente pensa se fez certo.
O roteiro psicossocial da consolidação autoritária
A manifestação desse tipo de mentalidade pressupõe manobras psicossociais previsíveis. O primeiro mecanismo é a criação ou escolha do chamado “bode expiatório”.
O grupo ou indivíduo tratado como bode expiatório pode ser estrangeiro ou um membro da própria comunidade; basta que seja percebido como ameaçador.
De acordo com o antropólogo francês René Girard, a coesão social e a mobilização são potencializadas pela figura de um “outro” odioso e perigoso. Esse “inimigo do povo” é mitologicamente investido de poderes nefastos, o que facilita a projeção de toda a culpa sobre ele. Eliminada a vítima, as tensões coletivas são apaziguadas.
Segue-se o pensamento dicotômico, ou preto-e-branco, em construções binárias de “nós contra eles”. Essa simplificação é sentida como alívio, pois o pensamento complexo exige esforço. O mundo é reduzido a um único axioma: “Você está conosco ou contra nós?”.
Noam Shpancer observa que “nenhuma perspectiva alternativa é aceita… e o discurso e os processos de pensamento coletivo se tornam processos simples, em preto e branco, de conformidade”.
Em seguida, iniciam-se os procedimentos de submissão. As ameaças externas intensificam o desejo por coerência grupal e a identificação de um “salvador”. O salvador, uma vez identificado, torna-se o totem que representa a coletividade. O grupo projeta nesse líder os atributos necessários, como poder, coragem, sabedoria e retidão.
A pluralidade, o debate e a democracia são substituídos por uma hierarquia rígida, lealdade cega e regra autocrática. O líder é quem estabelece o próprio sentido da realidade, transformando fatos em propaganda inimiga. Por exemplo, vacina em veneno. O Estado de Direito é suplantado pela lei do governante. A regra é trocada pelo arbítrio, até que o arbítrio se faça regra.
A pressão pela “unificação” coletiva se intensifica, deixando de lado as complexidades das relações humanas em favor de uma identidade coesa contra a ameaça. A introspecção, a autocrítica e o debate são proscritos, vistos como fraqueza ou deslealdade. Tais operações cognitivas levariam a questionamentos e à subjetividade.
A mentalidade totalitária é avessa à subjetividade. Ela exige objetividade, definida como uma verdade singular, determinada pelo líder e seguida cegamente. Qualquer instituição ou indivíduo que manifeste pensamento crítico – artistas, intelectuais, jornalistas – deve ser silenciado para preservar a coesão grupal.
A ciência conhece a censura, pois revela fatos que frequentemente contradizem ideologias inflexíveis, minando a ilusão de certeza adotada pela coletividade. Uma vez estabelecida, a mentalidade totalitária gera euforia para o grupo dominante, com a “embriaguez” do poder consolidado.
Por outro lado, o “exogrupo” experimenta descrença, desorientação e, subsequentemente, pânico. O resultado desse processo é trágico para todos os envolvidos. Essa estrutura mental tenta solucionar dilemas mediante a distorção e a negação da realidade. Historicamente, regimes totalitários resultaram em períodos de violência e devastação.
Esses regimes costumam ser longevos. A Alemanha Nazista (1933–1945) durou 12 anos; a União Soviética, sob Stalin (1924 –1953), 29. O fim desses regimes ocorre tipicamente por meio de violência, golpes militares ou revoltas civis. Em poucos casos, um golpe relativamente pacífico liderado pelo exército.
Até que a história se movimente, se torne mais complexa, as incertezas se acumulem e o anseio por novas certezas aumente.
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