A esquerda é mais cruel nas guerras?
Estudo polonês traz indícios relevantes sobre a correlação entre adesão ideológica e justificação de crimes de guerra
Um novo estudo no campo da psicologia da justificação de conflitos aponta que certas premissas sobre identidade de grupo e filiação política não se confirmam ao avaliar a moralidade da guerra. O trabalho demonstrou que o autoritarismo de esquerda está associado a uma maior tolerância a métodos de combate cruéis e ilimitados. Em contraste, o autoritarismo de direita não apresentou correlação com a aceitação ou repúdio dessas táticas.
Os resultados completos dessa investigação, que analisa o cenário político polonês, foram divulgados na revista acadêmica Politics and Governance.
A nuance do endosso a ações bélicas
A literatura em psicologia política investiga os determinantes que levam indivíduos a apoiar ações bélicas. Trabalhos anteriores estabeleceram vínculos entre visões de mundo, traços de personalidade e a predisposição para endossar agressões militares. Por exemplo, características como o narcisismo coletivo – uma crença exagerada e insegura na superioridade do próprio grupo – correspondem a políticas externas hostis.
No entanto, os autores desta nova análise observaram uma lacuna significativa neste corpo de conhecimento. A maioria das análises tratava o apoio ao conflito de maneira monolítica. Elas ignoravam o raciocínio moral complexo usado pelas pessoas para determinar a justificativa da guerra.
A doutrina da “guerra justa”, com suas raízes na teologia e na filosofia, pretende distinguir os motivos ilegítimos dos legítimos a respeito de quando e em que condições iniciar um conflito, como a autodefesa e de como evitar vítimas civis. Os cientistas buscaram entender como diferentes perfis psicológicos se articulavam com essas crenças morais mais específicas.
Eles examinaram formas de apego a grupos, incluindo identidades religiosa e nacional, verificando se o vínculo de um indivíduo era seguro e positivo ou narcisista e defensivo. O estudo também comparou o autoritarismo de direita, com seu foco na submissão à autoridade e na tradição, com o autoritarismo de esquerda. Este último se manifesta por agressão anti-hierárquica e pelo ímpeto de censurar opiniões divergentes.
Padrões inesperados na aprovação da violência
Para conduzir a pesquisa, a equipe recrutou 448 adultos que compunham uma amostra comunitária na Polônia. O país é uma nação pós-comunista com proximidade geográfica de um conflito de grande escala. Os participantes preencheram uma série de questionários em formato digital.
O instrumento central foi uma nova escala desenvolvida para aferir crenças que justificam a guerra. Esta ferramenta apresentava tanto razões para iniciar o confronto quanto métodos para executá-lo. Os participantes tiveram de classificar o quão justificável era cada item.
As opções variavam amplamente, desde ações puramente defensivas até táticas extremamente agressivas. Isso incluía itens como usar armamento químico ou atacar intencionalmente populações civis.
A análise estatística indicou que as opiniões dos participantes se concentraram em três categorias distintas.
Uma delas era a perspectiva de “guerra justa”, que aliava razões restritas para o conflito, como defesa, a meios restritos, como a minimização de danos colaterais. As outras duas categorias consistiam na aceitação de razões irrestritas para o início de uma guerra e na aceitação de meios brutais e desregrados para a sua condução.
Um dos achados mais relevantes foi a ausência de qualquer associação do autoritarismo de direita com qualquer uma dessas três categorias de justificação da guerra. Este dado contraria extensas pesquisas prévias que frequentemente ligavam essa ideologia a posturas agressivas.
Em nítido contraste, o autoritarismo de esquerda demonstrou correlações definidas. Indivíduos com altos escores nessa medida (indivíduos de esquerda) eram menos propensos a apoiar o ponto de vista da guerra justa. Ao mesmo tempo, manifestaram maior aceitação do emprego de meios brutais e ilimitados durante um conflito.
É como se um esquerdista dissesse: “Pago para não entrar numa guerra, mas pago ainda mais para não deixar barato antes de sair dela”.
Patriotismo e limites morais
O estudo também apontou conclusões pertinentes sobre o papel da identificação grupal. Uma identificação positiva e segura com a própria nação se vinculou a um endosso mais forte da visão de guerra justa. Este resultado sugere que uma modalidade sadia de pertencimento nacional está ligada ao desejo de que o conflito seja travado dentro de parâmetros éticos.
Essa identificação previu o apoio à guerra justa de forma independente, sem a mediação do autoritarismo. Por outro lado, o narcisismo nacional comunitário – a crença na superioridade moral da nação – se associou a uma aceitação reduzida da perspectiva de guerra justa. Os autores sugerem que, para esses indivíduos, a retórica moral pode servir mais como exibição do que como um guia efetivo para o comportamento.
Outra observação foi que a identificação religiosa, fosse ela segura ou narcisista, não apresentou praticamente nenhuma ligação com as crenças sobre justificação da guerra. Isso indica que, no contexto desta análise, o vínculo com um grupo religioso não se traduziu em uma posição moral específica sobre a legitimidade do conflito armado.
Os pesquisadores reconhecem que o estudo possui ressalvas. A pesquisa é correlacional, indicando apenas associações entre fatores, sem provar causalidade. Além disso, o trabalho foi realizado em uma única nação, o que limita a generalização dos achados para outros contextos culturais. Futuras investigações devem explorar estas relações em diferentes regiões e aprimorar as ferramentas de medição.
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