Josias Teófilo na Crusoé: As duas memórias da Europa
A partir de 1945, o continente dividiu-se em dois mundos. Enquanto um vivia a democracia, o outro lidava com censura e polícia política
O filósofo romeno Horia-Roman Patapievici escreveu que a Europa não tem uma memória unificada, mas duas memórias: uma do bloco comunista e outra do ocidental.
A partir de 1945, a Europa dividiu-se entre esses dois mundos. Enquanto um vivia a democracia, a reconstrução econômica, a continuidade institucional, as liberdades civis e o pluralismo intelectual, outro vivia a censura, a polícia política, o medo e a manipulação da verdade histórica.
Mas a parte ocidental não compreende o que foi o comunismo.
Eles tratam o comunismo como sendo menos grave que o nazismo, o que é um erro. O comunismo, ainda segundo Patapievici, destruiu culturas inteiras, produziu terror político sistemático e deixou marcas psicológicas profundas que persistem até hoje.
Um cineasta tem se dedicado a representar as duas memórias da Europa: o polonês Pawel Pawlikowski.
Ele dirigiu Guerra Fria, que acompanha a relação conturbada entre Wiktor, um maestro, e Zula, uma jovem cantora de origem humilde.
Wiktor trabalha em um grupo musical folclórico patrocinado pelo governo comunista. Zula entra para o grupo e os dois se apaixonam rapidamente. Mas o contexto político repressivo, as diferenças de personalidade e os desejos conflitantes tornam o relacionamento tumultuado.
O contraste entre os dois ambientes (dentro e fora da cortina de ferro) é muito bem explorado no filme, sem proselitismo: enquanto na Polônia comunista não há liberdade, vive-se em estado de alerta constante, na França livre há um niilismo próprio do mundo livre.
Não é à toa que, naquele país, eles falam de Deus, enquanto, neste, na França, eles parecem embriagados dos excessos da liberdade — bebem e traem.
É como se eles fossem oprimidos pelo Estado na…
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