Josias Teófilo na Crusoé: A universalidade da experiência artística
O que a comoção de uma aldeia indígena ao ouvir Maria Callas revela sobre a perda de sensibilidade do mundo moderno?
No documentário francês Le Monde d’Avatar est Vrai, há uma cena particularmente marcante em que a música de Maria Callas é tocada para um grupo de índios.
Lançado entre 2010 e 2011 na televisão francesa, o filme constrói a cena de modo bastante sensível: primeiro vemos o ambiente natural, a aldeia, a floresta ao redor, a vida cotidiana simples.
Em contraste, é introduzida a gravação da ária Casta Diva, da ópera Norma de Bellini, na voz de Maria Callas.
À medida que a ária se desenvolve, a câmera se aproxima dos rostos dos índios.
Eles não tinham compreensão alguma da língua ou da tradição operística, apenas uma reação emocional: escutam em silêncio absoluto, demonstram surpresa, e gradualmente surgem expressões de profunda comoção.
Olhos marejados, semblantes concentrados, uma espécie de silêncio reverente toma conta do grupo.
Eles não falam sobre ópera nem sobre técnica vocal, porque esse universo não lhes é familiar — o que comentam é aquilo que sentem ao ouvir a voz.
Alguns dizem que parece que a mulher está chorando ou sofrendo profundamente, que a voz carrega uma dor muito grande.
Outros observam que, mesmo sem entender as palavras, conseguem perceber que se trata de um canto triste, quase como um lamento. Há quem associe a interpretação a uma expressão de sentimento que vem do coração.
A cena é exemplar da universidade da experiência artística, apesar do conhecimento prévio nulo.
Com efeito, suponho que a falta de conhecimento é na verdade uma vantagem, e não uma desvantagem.
Andrei Tarkóvski recomendava aos espectadores dos seus filmes que não buscassem interpretar símbolos nas suas obras, que os vissem com um olhar puro.
Suponho que um bom filme teria o mesmo efeito…
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