Josias Teófilo na Crusoé: A singularidade do cinema religioso
Nos filmes de Tarkóvski, os elementos da natureza, o fogo, o ar, a água e a terra são portadores de uma realidade transcendente própria do sonho
O cineasta soviético Andrei Tarkóvski viveu numa circunstância totalmente singular: não obstante ter vivido num estado militante ateu, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), ele realizou a obra mais profundamente religiosa e transcendente da história do cinema.
Isso não se deu sem conflitos, evidentemente. O cinema soviético, como toda a vida artística, era gerida por alguns funcionários do Estado. Mas não era vinculado ao Ministério da Cultura, e sim pela Goskino (sigla para o Comitê Estatal para o Cinema), cujo presidente tinha status de ministro.
A Goskino controlava a produção, a distribuição e a exploração comercial dos filmes, numa imensa estrutura com uma dezena de organismos principais, controlados internamente pela KGB, que precisava aprovar todas as decisões.
Uma vez que o cinema era uma arte considerada importantíssima na URSS (Lênin definiu: “de todas as artes, o cinema é a mais importante”), as decisões principais eram dadas por um indicado do Politburo (instância suprema do Partido Comunista, cujo secretário-geral era também o chefe de estado).
Tarkóvski estava inserido nessa estrutura burocrática e lá realizou seus filmes. Não era possível no país produzir cinema alternativo ou independente – todos os artistas tinham que estar ligados a uma associação de classe, e produzir dentro dessas entidades – até os escritores ou pintores, por exemplo.
O Estado soviético era oficialmente ateu, e chegou a perseguir a religião nos anos 1920 e 1930, quando igrejas históricas (algumas centenárias) foram destruídas…
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