Gustavo Nogy na Crusoé: Um pouco de esnobismo até que faz bem
Os cadernos culturais ainda vivos, ou mortos-vivos, são panfletos de quermesse, ocupados por anúncios de condomínios
Se o jornalismo em sentido estrito já não anda bem das rotativas, ameaçado pelos interesses demagógico-institucionais dos muitos, não apenas três, Poderes da República, o que teríamos para dizer do seu primo pobre, vestido com roupa de domingo, o engomado jornalismo cultural? Coitadinho, ninguém liga. É das hard news que eles gostam mais.
Porque, bem ou mal, para aplaudir ou apedrejar, desmentir ou acreditar, atrair ou atraiçoar, os leitores ainda se importam com as notícias políticas (quase sempre policiais) e econômicas (quase sempre eleitorais). Elas mexem nos bolsos e nos nervos, e todo jornalista virou sparring da neurose alheia no piscinão analítico das redes sociais. Alguma função pública cumprimos.
Mas, e esse outro, o jornalismo cultural, que tem menos espaço que o esportivo e menos audiência que o de fofocas — quem reivindica seus direitos? Quem chora sua morte?
Foi-se o tempo, e não faz muito tempo, em que o maior risco de se abrir um dos cadernos culturais dos jornalões brasileiros era encontrar duas páginas e meia de um ensaio criptografado no idioma alienígena do Pierre Bourdieu, publicado por um discípulo menos talentoso do Pierre Bourdieu. Tenho saudades de ler e não entender nada.
Agora, os cadernos culturais ainda vivos, ou mortos-vivos, são panfletos de quermesse, ocupados por anúncios de condomínios com ótimo acesso ao aeroporto, dicas sobre restaurantes e comidinhas, datas dos imperdíveis novecentos shows de grupos sul-coreanos e, envergonhada, uma resenha sobre um filme qualquer, que porventura tenha estreado na semana e vá bem na bilheteria. Nacional? Melhor ainda.
Uma objeção possível a tais lamentos de meia-idade seria dizer o seguinte: nunca se fez tanto jornalismo cultural nas centenas, nas centenas de milhares de canais, sites, newsletters internet afora. Em tese, o que mudou não foi o jornalismo cultural, mas seus meios de distribuição e sua disposição hierárquica: não mais feito por alguns, mas por muitos ou por todos. Do it yourself, leitor.
Eu queria sinceramente…
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