Gustavo Nogy na Crusoé: Ler ficção para ler a ficção da política
Um tanto por dever e outro tanto por curiosidade, abro a tampa da campanha eleitoral
Quando as eleições se aproximam e as promessas abundam, recorro a uma certa pilha de livros que fica ao alcance da mão. A releitura de algumas páginas basta para reforçar a imunidade contra utopias e distopias (há diferença?).
Candidatos querem meu voto e publicam planos, gravam jingles, mastigam pastéis. Vituperam contra a fome, o crime, o El Niño, a imoralidade, o moralismo. Apontam dedos, empinam narizes, berram discursos.
Xingam a velha política com as velhas ofensas.
Um tanto por dever e outro tanto por curiosidade, abro a tampa da campanha eleitoral: o mau cheiro sobe.
Tapo o nariz e dou uma espiada para ver se encontro novidades. Quero ser enganado. Os olhos ardem. Guilty pleasure. Só encontro ideias vencidas de outras tantas eleições.
Para combater o crime, um Estado criminoso. Para estimular a produtividade, um Estado burocrático. Para preservar a liberdade, autoritarismo. Para proteger o indivíduo, mobilização popular. Para garantir a Justiça, suspensão dos direitos. Para promover a autonomia, centralização.
Leio os manifestos e decido: votarei naquele que tiver menos condições de vencer. Melhor do que um político que cumpre o que promete é um político que não cumpre o que promete. O único ato prudente num pleito de hospício é a abstenção.
Por isso, já não apelo a Maquiavel ou Hobbes, Burke ou Locke, Arendt ou Bobbio quando quero entender as ideologias ou me defender dos ideólogos.
Mais do que manejar argumentos, é preciso alargar a “imaginação moral”. Contra a demagogia, literatura.
O antídoto para a má ficção…
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