Escritores ucranianos debatem guerra e ficção na Flip
Andrei Kurkov e Maria Reva falam em Paraty sobre os limites e as dificuldades entre literatura e conflito armado
Existe uma estética — e, principalmente, uma ética — para se narrar (ou deixar de narrar) uma guerra? Escritores ucranianos se dispuseram a debater, na Festa Literária Internacional de Paraty, os obstáculos de transformar o conflito com a Rússia em matéria literária.
O encontro ocorreu na quinta-feira, 23, no início da 24ª edição do evento, com a participação de Andrei Kurkov e Maria Reva, mediados pela jornalista Laura Capelhuchnik.
Segundo O Globo, ambos relataram ter interrompido projetos de ficção após o início do conflito, em 2022, e falaram sobre a relação entre língua russa e identidade nacional.
Bloqueio criativo após a invasão
Kurkov, que mora em Kiev, contou que abandonou temporariamente a escrita de romances quando a invasão começou. Segundo o autor, a experiência de fugir da capital com a família ao lado, durante os primeiros bombardeios, afastou-o do universo da imaginação.
Ele revelou que um editor britânico o pressionou, por telefone, a registrar os acontecimentos: “Você deveria escrever, porque ninguém no Ocidente tem ideia do que está acontecendo na Ucrânia”.
O escritor afirmou que via a produção de ficção como incompatível com o momento vivido pelo país. “Ler e escrever ficção é prazeroso e sentir prazer durante a guerra é imoral”, declarou.
Kurkov disse ter retomado a escrita apenas em julho de 2024, quando concluiu um romance ambientado na Ucrânia atual, após reconhecer que talvez não dispusesse de tempo para tal tarefa somente após o fim da guerra.
Maria Reva, radicada no Canadá desde a infância, enfrentou dilema semelhante. Ela iniciara em 2018 um romance de tom cômico sobre estereótipos ligados a mulheres ucranianas, projeto suspenso quando a guerra eclodiu. “Não podia escrever ficção quando o cenário da história estava sendo destruído em tempo real”, explicou a autora, cujo avô reside em Kherson, cidade alvo de ataques intensos.
Reva optou por retomar o texto incorporando o próprio processo de dúvida sobre a legitimidade de converter sofrimento em obra literária: “O livro começa como ficção e acaba como não ficção”, resumiu, ao descrever a estrutura híbrida da narrativa resultante.
Língua russa dividida da política
Outro eixo da conversa envolveu o uso do idioma russo por parte de cidadãos ucranianos. Kurkov e Reva, falantes nativos de russo, rejeitaram qualquer vínculo automático entre o idioma e apoio ao governo de Vladimir Putin.
Reva reconhece a complexidade do tema, mas defende a separação entre expressão linguística e posicionamento político: “Tenho que lembrar que a língua não é uma filiação política”.
Kurkov acrescentou uma perspectiva histórica sobre a repressão ao ucraniano, como as restrições impostas por Pedro, o Grande, em 1750, à publicação de textos religiosos no idioma. Segundo o autor, esse histórico reforça a necessidade de defesa da língua ucraniana, hoje sob ameaça renovada pelo conflito.
Humor como recurso
Os dois autores destacaram o papel do humor diante da guerra. Kurkov encerrou sua participação com uma piada envolvendo Putin, o ex-presidente americano Richard Nixon e o ex-presidente francês François Mitterrand:
“O diabo fez um tour pelo inferno com Richard Nixon (ex-presidente americano), François Mitterrand (ex-presidente francês) e Putin. Chegaram a uma sala com telefone e Nixon perguntou se podia ligar para a Casa Branca. O diabo disse que sim, mas que custaria 5 milhões de dólares por cinco minutos. Nixon topou. Depois, Mitterrand quis ligar para Paris e o diabo disse que custaria 5 milhões de euros por cinco minutos. Quando Putin quis ligar, o diabo disse que custaria apenas cinco centavos. Nixon e Mitterrand perguntaram por que eles pagaram tão caro e Putin tão barato e o diabo respondeu: “Porque as ligações de vocês foram internacionais, a dele é local”.
A mesa também abordou a escalada recente do conflito, com referência a ataques aéreos russos contra cidades ucranianas e a protestos populares motivados pela demissão do ministro da Defesa, Mikhailo Fedorov.
O painel integrou a programação da Flip dedicada a discutir a relação entre literatura e eventos históricos em curso.
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