Em tempos de IA, por que fazer terapia com um ser humano?
Embora a IA ofereça novas aplicações, como substitutos terapêuticos e aplicativos de apoio, psicólogos levantam sérias preocupações
A ascensão da inteligência artificial (IA) tem gerado debates interessantes sobre seu papel em diversos setores, incluindo alguns em que não imaginávamos, como o da saúde mental. Embora a IA ofereça novas aplicações, como substitutos terapêuticos e aplicativos de apoio, psicólogos clínicos e pesquisadores admitem sérias preocupações sobre a capacidade dessas ferramentas de replicar a profundidade e a autenticidade da conexão humana essencial na psicoterapia. Jennifer Gerlach, assistente social clínica licenciada e psicoterapeuta, defende que a interação com um terapeuta humano é insubstituível.
Reserva de mercado ou conexão humana?
A psicoterapia é uma relação de grande significado, em que os clientes compartilham sentimentos profundos, segredos, alegrias e medos, em um ambiente de confiança. Terapeutas desempenham inúmeros papéis, desde ouvir e “manter a esperança”, até ajudar indivíduos no enfrentamento de traumas passados, facilitar a comunicação em terapia de casais e família, e auxiliar na reavaliação de crenças limitantes.
Jennifer Gerlach defende que a terapia pressupõe uma relação confidencial entre duas ou mais pessoas, e a profundidade da escuta e da conexão exigida é uma capacidade exclusivamente humana. A Inteligência Artificial, embora possa processar vastas quantidades de dados, não consegue – por sua natureza “artificial” – relacionar-se de maneira empática ou compreender a experiência humana em um “sentido sentido”. Tarefas complexas como confrontar a autoenganação ou trabalhar traumas em profundidade permanecem fora do alcance dos dispositivos de IA.
Além disso, existe uma questão de princípio aqui. Um robô pode construir frases que correspondam a conselhos considerados “bons” ou “úteis” a uma determinada pessoa. Mas, no fundo, o que ele está fazendo é o que toda inteligência artificial faz: rastrear e recombinar dados e entregar um determinado “produto” desses rastreio que corresponda a um comando (prompt). No fundo, qualquer pessoa sensata teria de reconhecer que isso é tão significativo quanto jogar letrinhas de papel picado pro alto, e comemorar que elas tenham formado frases coerentes que pareçam “dizer” alguma coisa.
De certa maneira, a inteligência artificial generativa (pelo menos na terapia) é como o teorema do “macaco infinito” ou “macaco digitador”: dê a um macaco um teclado e um intervalo infinito de tempo. Digitando aleatoriamente, é provável que uma das combinações possíveis seria reescrever, palavra por palavra, as obras completas de William Shakespeare. Sem intenção, apenas combinações.
Riscos e limitações da terapia por IA
Além da falta de conexão autêntica, a implementação de serviços de IA na saúde mental apresenta outros riscos. Um dos principais é a amplificação de vieses sociais, com investigações mostrando que sistemas de IA podem adotar preconceitos presentes na consciência coletiva, incluindo o estigma contra pessoas com condições de saúde mental. Incidentes preocupantes já foram reportados, como chatbots de IA aconselhando indivíduos contra seus tratamentos de saúde mental ou fornecendo conselhos prejudiciais sobre distúrbios alimentares.
Há também uma crescente preocupação com a privacidade das informações compartilhadas virtualmente, especialmente quando se trata de sessões inteiras. Embora existam aplicativos de saúde mental úteis para funções específicas, como rastreamento de humor ou suporte para esquizofrenia e resiliência, e até programas que auxiliam psicoterapeutas com exercícios personalizados, esses não são projetados para substituir a psicoterapia humana. A suspeita é que a gestão de planos de saúde possa direcionar indivíduos para serviços de IA, mais baratos, que não oferecem uma experiência psicoterapêutica real.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)