Em NY, um tradutor judeu é despejado por ter livros demais
Administração do prédio alegou risco de incêndio no apartamento alugado e moveu ação contra estudioso de hebraico
Um tradutor de hebraico e editor literário foi obrigado a deixar o apartamento onde morava havia um ano, no Upper East Side de Manhattan, depois que a administração do edifício considerou que o acervo de dez mil livros mantido no imóvel de 55 metros quadrados era perigoso. Mendel Uminer, de 31 anos, usava a residência como moradia e sede de sua revista, a Notarikon Review.
No início deste ano, Uminer recebeu comunicado formal da administração do prédio, que classificou a situação como violação do contrato de locação. O documento apontava “acúmulo excessivo de livros no local” e mencionava risco de incêndio pelo material inflamável armazenado no apartamento.
Diante da ausência de resposta ao aviso, teve início o processo judicial de despejo. Segundo o relato de Uminer, a empresa responsável pelo imóvel condicionou sua permanência à redução do volume de livros guardados no espaço.
Após meses de disputa, ele optou por deixar a unidade voluntariamente: “Não quero ficar aqui se não sou bem-vindo”, afirmou ao jornal NYT. O apartamento é administrado pela Hakim Organization, ligada ao empresário do setor imobiliário Kamran Hakim; a companhia não respondeu a pedidos de entrevista.
Formação religiosa e mudança de rumo
Uminer foi criado em uma comunidade hassídica no Brooklyn, onde aprendeu iídiche com os avós e estudou a Torá ao lado do pai. Ainda criança, teve contato com literatura russa, tendo lido Dostoiévski aos 12 anos. Na adolescência, cursou seminário rabínico, com rotina de aulas e debates teológicos noturnos.
Por volta dos 20 anos, aproximou-se da livraria nova-iorquina Strand e, um ano antes de concluir sua ordenação, decidiu abandonar a trajetória religiosa planejada para sua vida. Ingressou então na Universidade de Columbia, onde cursou cinema e filosofia.
Passagem por Paris e criação da revista
Após se formar, aos 27 anos, Uminer mudou-se temporariamente para Paris. Lá, teve contato com publicações como a Nouvelle Revue Française e a Connaissance des Arts, que segundo ele reúnem “uma familiaridade com a controvérsia, uma precisão argumentativa e um senso de consciência histórica”.
De volta a Nova York, fundou a Notarikon Review, publicação que pretende reunir autores com posições divergentes entre si. A versão impressa da revista tem lançamento previsto ainda para 2026.
O dono da livraria Mizrahi, no Brooklyn, Israel Mizrahi, que conhece Uminer, comentou o apego do escritor aos livros: “De todos os vícios, acho que os livros são os menos perigosos”. Ele também descreveu a relação entre tradição judaica e conhecimento como parte do que motivava o acervo do amigo.
O cineasta Julian Cosma, que ajudou na mudança dos pertences de Uminer, relacionou o episódio a uma tensão mais ampla na cidade. Segundo ele, existe hoje em Nova York “um aspecto (…) que é hostil à vida intelectual e à excentricidade que pode gerá-la”.
Uminer afirmou que pretende continuar reunindo obras sobre judaísmo, cinema, ópera, teatro e poesia, temas que segundo ele orientam sua rotina de leitura e trabalho como tradutor freelance.
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