Em “estado de guerra”, Terence Tao rompe com a OpenAI
Um dos maiores matemáticos vivos, ele diz que não vê mais como dialogar com a empresa, que divulgou mais de 350 resultados outubro
O matemático Terence Tao, 51, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), declarou que não vê mais condições de diálogo com a OpenAI. A ruptura veio depois de a empresa divulgar, no dia 6 de outubro, mais de 350 descobertas em praticamente todas as subáreas da disciplina.
Dias antes, a companhia havia anunciado a solução do problema de Navier-Stokes, um dos sete Problemas do Milênio, que resistiam havia quase um século.
“Estou em estado de guerra”, disse Tao em um intervalo de workshop na UCLA, dedicado à crise que a inteligência artificial provocou na matemática. Em entrevista em seu escritório no campus, onde trabalha desde 1996, acrescentou: “Não há mais regras”.
Impacto sobre a área
Tao é considerado um dos maiores matemáticos do mundo. Concluiu o doutorado em Princeton aos 20 anos e tornou-se professor titular aos 24. Segundo ele, pesquisadores veteranos sentem menos a pressão da IA do que os que começam a carreira.
O anúncio de outubro atingiu também quem estava perto de resolver problemas em que trabalhava havia anos. Esses matemáticos viram a máquina chegar antes a respostas que buscavam.
Tao descreveu o próprio estado de ânimo: “Já estou insensível ao que, um ano atrás, teria me deixado de queixo caído. Em algum momento, talvez eu seja atingido por uma onda avassaladora de transtorno de estresse pós-traumático”.
Em publicação no blog Proofs and Prompts, ele escreveu: “Estou horrorizado com tantos anos de trabalho” de pesquisa, sobretudo de jovens matemáticos, “sendo displicentemente prejudicados ou destruídos”.
O texto prossegue com uma comparação. “Assim como não é possível deixar de saber um spoiler de filme ou uma pista de palavras cruzadas depois de ouvi-los, também não se pode explorar um problema de maneira tão proveitosa e rica quando já se conhece uma solução”.
Tao lamentou ainda “o caminho não trilhado e as oportunidades perdidas na corrida desenfreada para desenvolver essa tecnologia”.
De colaborador a crítico
O matemático usa IA como assistente para cálculos, programação, consulta a acervos bibliográficos e desenvolvimento de ideias. Testa os modelos da OpenAI desde 2023 e defendia um futuro que combinasse “o melhor dos dois mundos”.
Ele afirma que a relação com a empresa mudou: “Até um ano atrás, eu tinha uma relação muito boa com muitos funcionários da OpenAI”, disse por telefone.
Na avaliação dele, havia consenso entre os interlocutores. “Muitas das pessoas com quem interagi compartilhavam uma visão bastante comum de como a IA deveria ser utilizada para dar mais recursos aos cientistas”.
Os anúncios, porém, mudaram sua leitura sobre as intenções da empresa. Para Tao, a OpenAI “usou a matemática para o que precisava, que era avaliar seus modelos”, e, a seu ver, já não há espaço para conversa. “A esta altura, não vejo como manter um diálogo construtivo”, afirmou.
O blog de Tao, criado há 20 anos, é hoje a principal referência da comunidade matemática. No dia em que publicou uma declaração contra a iniciativa da OpenAI, assinada por ele e por outros 24 ganhadores da Medalha Fields, o site chegou a 100 mil visualizações.
O vídeo promocional
A relação com a empresa tinha um componente financeiro. Em 2025, o governo de Donald Trump suspendeu US$ 600 milhões em verbas de pesquisa destinadas à UCLA, o que ameaçou o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, onde Tao é diretor de projetos especiais.
Em busca de recursos, ele procurou a OpenAI. A empresa aceitou patrocinar um workshop no instituto, por um valor que, segundo o matemático, ficou entre US$ 60 mil e US$ 70 mil.
O evento ocorreu em março de 2026. Na ocasião, a OpenAI gravou uma entrevista de uma hora, na qual Tao falou sobre benefícios e riscos da IA. Ele esperava a divulgação do material completo.
A empresa publicou um vídeo de um minuto. Nele, Tao escreve em um quadro-negro, ao som de música animada, e diz: “Acho que ela está pronta para o horário nobre”.
O matemático afirmou em seu blog que autorizou o uso do anúncio. Em retrospecto, escreveu, deveria ter “resistido com mais firmeza”.
Dúvidas sobre a demonstração
Tao também questionou a qualidade da demonstração apresentada para Navier-Stoke: “Tecnicamente, dá para ler. Mas nenhum especialista com quem conversei conseguiu compreender todo o argumento”.
Segundo ele, a redação foi aprimorada na versão mais recente, que ainda considera irregular. Alguns artigos citaram o trabalho dele de forma adequada e o desenvolveram de modo plausível. Falta, porém, um interlocutor: “Não há um autor com quem eu possa ter uma conversa de verdade sobre os resultados”.
Em setembro, quando já sabia do lançamento de 6 de outubro, Tao chamou os resultados que viriam de “resíduo tóxico”. Agora, os descreve como “talvez resíduo tratado”.
Resposta da empresa
Em comunicado, a porta-voz da OpenAI, Laurance Fauconnet, afirmou que a companhia valoriza o diálogo com Tao e com a comunidade matemática. Segundo o texto, o laboratório trabalha “com a comunidade para transformar os avanços em inteligência artificial em uma compreensão humana mais profunda e em novas descobertas, e continuaremos a levar em conta suas contribuições”.
Além da pesquisa, Tao dedica boa parte do tempo ao que chama de organização comunitária. Reúne grupos de matemáticos, define estratégias, atende à imprensa e dá palestras sobre IA. Aceitou o papel de porta-voz não oficial da área, que, por ora, consome a maior parte de sua agenda.
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