Dennys Xavier na Crusoé: O que é mortal… morre
A filosofia oferece ao homem uma forma de permanecer humano diante da perda, sem revolta cega contra a realidade e sem fuga sentimental para ilusões confortáveis
Algumas perdas chegam sem solenidade. Outras dão sinais de aproximação… sinais muitas vezes ignorados ou atropelados pelas tarefas do dia.
O sol continua sobre as ruas, pessoas seguem seus compromissos, motores continuam ligados, cafés continuam sendo ritualmente servidos, e o mundo mantém seu movimento indiferente diante da ausência recém-instalada.
Talvez uma das experiências mais desconcertantes da condição humana esteja justamente aí: perceber que a realidade não interrompe seu curso quando alguém desaparece.
A morte entra na vida como um silêncio novo, incômodo, amargo, dentro de uma paisagem antiga. Tudo permanece no lugar, mas o peso semântico muda.
Alguns filósofos observam esse fenômeno com uma lucidez cortante.
Entre os estóicos existia a convicção de que a consciência da mortalidade deveria acompanhar o homem como companhia permanente da razão. Eu mesmo, inspirado por esses antigos sábios, trago com força essa admoestação para o meu dia a dia (quase nunca bem compreendida por terceiros… pior para eles).
Não por morbidez, tampouco por pessimismo… pelo contrário!
A lembrança da finitude concede nitidez às coisas essenciais.
Marco Aurélio escreveu: “Poderias deixar a vida agora mesmo. Que isso determine o que fazes, dizes e pensas”. A frase tem a firmeza de uma pedra lançada contra as distrações humanas, contra nossas vaidades tolas, infantilóides.
Quando alguém entende que o tempo tem limites invisíveis, certas preocupações começam a perder densidade, presença. Pequenos ressentimentos enfraquecem. Perfumarias sociais revelam sua fragilidade. Muitas disputas parecem (e são) tolas diante da precariedade comum a todos os homens.
Talvez o espírito humano carregue uma expectativa secreta de permanência, mantida de forma meio envergonhada.
As pessoas vivem como se houvesse sempre uma extensão garantida do amanhã. Fazem planos longos, adiam conversas importantes, acreditam…
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