Autoritários por natureza? Neurocientista estuda a influência das ideologias
Ideologias funcionam como histórias que explicam o mundo em termos simples; nosso cérebro, que gosta de economizar energia, agradece
Novas pesquisas no campo da neurociência e psicologia política sugerem que a adesão a ideologias não é apenas uma questão de crenças ou valores, mas pode estar profundamente ligada à própria estrutura e funcionamento do cérebro humano.
A neurocientista e psicóloga política Leor Zmigrod, da Universidade de Cambridge, defende que ideologias oferecem narrativas que satisfazem necessidades humanas fundamentais, como a compreensão do mundo e o senso de pertencimento a uma comunidade.
No entanto, propensão, se radicalizada, tende a levar à rigidez cognitiva e limitar a capacidade de processar informações de maneira flexível e adaptativa. Suas descobertas indicam que diferenças biológicas, incluindo a distribuição de dopamina e o tamanho de certas estruturas cerebrais como a amígdala, podem predispor indivíduos a pensamentos mais inflexíveis.
Por que as ideologias atraem tanto?
No livro “The Ideological Brain: The Radical Science of Flexible Thinking”, Leor Zmigrod descreve ideologia como uma estrutura narrativa que explica como o mundo opera e como deveria operar. Essa moldura conceitual, mais ou menos ampla ou sofisticada, aos poucos determina prescrições rígidas sobre comportamento e pensamento, e condena os desvios.
Há também um componente de eficiência cognitiva. Explorar o mundo de forma aberta e flexível pode ser mentalmente custoso, enquanto ater-se a padrões e regras conhecidas, pressupostos por uma ideologia, economiza tempo e energia. Além disso, ideologias promovem a ideia de que a adesão às suas regras é o único caminho correto e moral de viver.
Contudo, Zmigrod adverte que as ideologias funcionam como intermediários que “amortecem” a experiência direta do mundo, limitando a capacidade de adaptação, de perceber evidências e distinguir entre informações confiáveis e não confiáveis. Para ela, ideologias, sejam quais forem, “raramente são boas”.
Cérebro, pensamento ideológico e capacidade de mudar
A pesquisa de Zmigrod revela diferenças notáveis na forma como pessoas mais ou menos apegadas a ideologias processam informações.
Em estudos com crianças, por exemplo, aquelas mais propensas ao preconceito e ao autoritarismo demonstraram ser narradores menos confiáveis ao recontar histórias. Elas tendiam a distorcer as narrativas para confirmar seus preconceitos pré-existentes, destacando ou inventando características negativas para personagens de minorias étnicas, ou repetindo rigidamente detalhes isolados. Crianças menos preconceituosas, em contraste, mostravam maior fidelidade à história original.
A rigidez se manifesta também em tarefas cognitivas. Pessoas mais inclinadas ao pensamento ideológico demonstram resistência a mudanças ou nuances, mesmo quando confrontadas com evidências de que as regras do ambiente não funcionam mais. Enquanto os mais adaptáveis mudam seu comportamento diante de novas evidências, aqueles com pensamento ideológico resistem e tentam aplicar as regras antigas.
Essas diferenças comportamentais parecem ter bases biológicas. Experimentos indicam que indivíduos mais inflexíveis podem ter predisposições genéticas relacionadas à distribuição de dopamina no cérebro, com níveis mais baixos no córtex pré-frontal e mais altos no estriado.
Contudo, Zmigrod pondera sobre a ambiguidade: seria o cérebro que determina a política, ou a imersão em uma ideologia que altera o cérebro? Noutras palavras, aderimos a determinadas ideologias porque somos autoritários, ou nos tornamos autoritários porque aderimos a determinadas ideologias? A diferença entre causalidade e correlação às vezes é sutil, mas sempre fundamental.
Apesar das aparentes predisposições, tenham elas causas biológicas ou não, Zmigrod defende que a capacidade de flexibilidade mental existe. Embora possa ser mais desafiador para aqueles com vulnerabilidades genéticas ou biológicas, a mudança no nível de adesão ou rejeição a ideologias não é impossível.
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