Artista retira vídeo polêmico sobre Churchill de museu londrino
Helen Cammock removeu obra da National Portrait Gallery após carta de historiador e lordes contestar referência à fome na Índia colonial
A artista britânica Helen Cammock retirou da National Portrait Gallery, em Londres, uma videoinstalação que associava Winston Churchill à fome ocorrida na Índia sob domínio colonial britânico.
Segundo O Globo, a decisão foi tomada na segunda-feira, 22, após críticas de um historiador e de integrantes da Câmara dos Lordes à forma como o ex-primeiro-ministro foi retratado na obra.
O trabalho intitulado “Persistência” ficou exposto no museu londrino por cerca de um ano. No vídeo, com 38 minutos de duração, Cammock estabelece um paralelo entre Churchill e Oliver Cromwell, líder da guerra civil britânica no século XVII, e relata ter revisto sua percepção sobre Cromwell ao descobrir que ele teria promovido mortes em massa por fome, em comparação com o episódio indiano atribuído a Churchill.
Crítica de historiador
O historiador Andrew Roberts, autor de uma biografia de Churchill, encaminhou ao museu uma carta aberta no dia 16 de junho. O documento reuniu assinaturas de mais de 50 parlamentares e ex-parlamentares da Câmara dos Lordes, entre eles Nicholas Soames, neto do ex-premiê.
Segundo a carta, a obra constitui “um discurso ideologicamente motivado” e é classificada como “historicamente absurda”. Roberts também afirmou que a artista denigre “alguém que muitos consideram o maior britânico de todos os tempos”.
Em resposta, a National Portrait Gallery definiu a peça como uma narrativa construída em primeira pessoa, concebida como produção artística e não como documentário. A instituição destacou que o vídeo reúne diversos personagens, reais e fictícios, e contém apenas uma menção direta a Churchill ao longo de toda a duração.
Debate sobre a fome de Bengala
A fome de Bengala, em 1943, durante o período final do domínio britânico na Índia, resultou na morte de aproximadamente 3 milhões de pessoas. O episódio é alvo de divergência entre pesquisadores há décadas quanto à responsabilidade de Churchill, então chefe de governo britânico.
O economista Amartya Sen, vencedor do Nobel, atribui o problema a uma alta expressiva nos preços de alimentos, decorrente dos gastos militares britânicos durante a Segunda Guerra Mundial contra o Japão, fator que teria empobrecido a população rural.
Já a escritora Madhusree Mukerjee sustenta, em livro publicado em 2010, que autoridades britânicas foram avisadas sobre o risco de fome e, ainda assim, mantiveram exportações de arroz da região.
Roberts e outros pesquisadores, por sua vez, apontam um tufão e a destruição de rotas de abastecimento durante o conflito como causas principais, citando o envio posterior de grãos pelo governo Churchill à Índia.
Em declaração distribuída pelo museu, Cammock afirmou existir uma pressão sobre artistas e instituições culturais para que recuem diante de questionamentos externos, e defendeu que contestar versões históricas estabelecidas é necessário para o funcionamento de uma sociedade saudável.
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