Algumas dicas (inúteis?) sobre leitura e escrita
Todo escritor nasce imitando mal e – com sorte – morre imitando bem
Mais importante do que escrever é ler. Muito mais. O argentino Jorge Luis Borges, que por acaso é meu preferido entre todos, disse certa vez: “Que os outros se orgulhem dos livros que escreveram, eu me orgulho dos livros que li”. E olha que ele tinha todos os motivos para se orgulhar dos livros que escreveu. Nunca deu um boa-noite que não fosse com estilo.
É natural que, de tanto ler, alguns leitores sintam a comichão de escrever. Se bem, se mal, se muito, se pouco, não importa. O que importa é que todo escritor começa imitando descaradamente e, com sorte, competência e muito trabalho, termina imitando discretamente. Literatura é empréstimo, é influência, com ou sem angústia.
Foi assim comigo. Num dado momento da vida, tive dúvidas. Sobretudo: tive certezas e desconfiei das certezas. Queria compreender certas coisas e as certas coisas me levaram aos livros, o que me parecia o caminho natural: se não sei nada, procuro quem saiba. Se não sei responder, pergunto.
Daí, algumas tímidas visitas a livrarias (que eram poucas e caras) e, principalmente, nos mais ensebados dos sebos (que eram muitos e baratos).
É preciso advertir que sou dum tempo analógico e, para os critérios de hoje, estive mais perto de conhecer Johannes Gutenberg e Thomas Edison do que Steve Jobs e Mark Zuckerberg. Não havia Google nem mídias sociais.
Isso não me impediu de ler, ler e ler. Minha mãe garantia que eu ficaria doido. (Não sei se minha mãe acertou. Estou averiguando.)
Eu frequentava os corredores dos sebos à procura dum livro que me levasse a outro. Enquanto forçava a vista para enxergar um volume à minha frente, meu ombro encostava num volume ao meu lado. Não foram poucas as vezes em que meu ombro tinha palpite melhor que meus olhos.
O método, quando havia, era simples: se, por exemplo, George Steiner citava Jorge Luis Borges, eu procurava saber quem era Jorge Luis Borges. Se Octavio Paz recomendava Marcel Proust, eu dizia amém e lia Marcel Proust. Se um amigo me indicava Murilo Rubião eu descobria que Murilo Rubião me indicava José J. Veiga.
Assim, a partir de um labiríntico processo que resultava numa bibliografia incidental, aos poucos eu fazia as minhas escolhas, reconhecia as minhas preferências, assumia as minhas rejeições, cultivava os meus preconceitos.
Não existem atalhos. Todo atalho é longo demais para quem é preguiçoso. Aprender a escrever leva tempo, mas é gostoso. E se não aprender? Continue lendo.
Escreve bem quem lê bem. De preferência, quem lê muito e bem. Livremente, obrigatoriamente, por prazer e por hábito, por querer e por dever, quando se tem e quando não se tem mais o que fazer. Na leitura, a propósito, pouco importam os gêneros. Na leitura vale tudo. Importa mesmo é a intimidade.
Alguns guias podem ser úteis:
Como escrever bem, de William Zinsser.
A jornada do escritor, de Christopher Vogler.
A arte de escrever, de Arthur Schopenhauer.
Como e por que ler, de Harold Bloom.
Por que ler os clássicos, de Italo Calvino.
Formas Breves, de Ricardo Piglia.
A arte do romance, de Milan Kundera.
Como funciona a ficção, de James Wood.
Story, de Robert McKee.
O espírito da prosa, de Cristovão Tezza.
Escrever ficção: Um manual de criação literária, de Assis Brasil.
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