A curiosa rebelião da Wikipédia contra a IA
Iniciativa de publicar resumos gerados por inteligência artificial foi vista como traição aos princípios e ao espírito editorial do projeto
A enciclopédia online colaborativa Wikipédia foi palco de uma entusiasmada rebelião de seus editores voluntários, que culminou na suspensão de um experimento interno para incorporar resumos de artigos gerados por inteligência artificial.
A iniciativa, que visava adicionar sumários produzidos por IA no topo de algumas páginas, foi prontamente descartada menos de 24 horas após seu lançamento devido a uma intensa onda de protestos da comunidade editorial.
Não deixa de ser inusitado: quando surgiu, por volta de 2001, criada por Jimmy Wales e Larry Sanger, a enciclopédia online mais conhecida do mundo era vista com desconfiança por acadêmicos, jornalistas e profissionais da comunicação.
Acostumados às rotinas editoriais e à política do “peer review” (revisão por pares, processo em que o autor de um artigo ou tese se submete ao escrutínio de outros autores), criticavam a iniciativa, partindo da premissa de que não haveria rigor ou controle sobre as informações.
De repente, vejam só, o mundo deu tantas voltas que, com o advento das inteligências artificiais generativas, e a produção incessante de textos por meio de bots, a Wikipédia se tornou a ferramenta “conservadora” da história.
Curadoria x Automação
O experimento da Wikimedia Foundation, que empregava um modelo de IA de código aberto da Cohere para manter certo controle e personalização, encontrou fortíssima oposição, apesar de os resumos gerados não apresentarem erros grosseiros ou “alucinações bizarras”.
Mas a insatisfação dos editores não se baseada em falhas técnicas flagrantes, mas em uma objeção conceitual à própria ideia da intervenção algorítmica.
Aberto ao escrutínio público, o processo editorial da Wikipédia permitiu que a dimensão da resistência se tornasse visível nas discussões abertas. Embora o experimento mostrasse que 75% dos leitores consideraram os resumos úteis, a maioria dos editores optou por descartar a ideia por completo, sob alegação de que “nenhum processo ou burocracia vai transformar uma má ideia em uma boa ideia”.
De um jeito ou de outro, a IA está aí
O revés da Wikipédia ressoa em redações jornalísticas (ainda mais tradicionais) ao redor do mundo, onde executivos buscam maneiras de implementar a IA para ganhos de eficiência sem desestabilizar o moral das equipes.
O jornalista Pete Pachal aponta que o caso da Wikipédia é um exemplo didático de “como não apresentar IA a uma equipe editorial que valoriza cada vírgula”.
A tensão é está no ar. Empresas jornalísticas e de comunicação que conseguem integrar a tecnologia com sucesso, como a Reuters, o The New York Times e o The Washington Post, o fazem de forma progressiva, equipe por equipe, cultivando a confiança antes de efetivar as mudanças.
Para Pete Pachal, no jornalismo, a maneira como a IA é introduzida é tão vital quanto suas funcionalidades. A transparência, a confiança e o respeito pelo trabalho editorial são indispensáveis para que a inteligência artificial se torne uma aliada, e não uma adversária, nas redações contemporâneas. Fugir dela não dá.
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