Não é de hoje que o brasileiro reclama de privilégios. Não é de hoje que o brasileiro segue sendo ignorado por quem pode fazer alguma coisa a respeito.
O Privileco foi anunciado em 10 de maio de 2019. Apenas 16 dias depois, foi entregue. Dos mesmos criadores do Pixuleco, alfineta os servidores públicos que, como diria Carlos Bolsonaro, vivem de “felpudos” recursos públicos.
Se havia dúvidas a respeito da agenda da marcha de 26 de maio, há apenas certezas a respeito dos privilégios de que tanto se beneficiam aqueles que estão no poder – e aqueles que o orbitam.
Afinal, este é um país em que mesmo a população mais carente banca oito assessores vitalícios a ex-presidentes. E nem a cadeia consegue evitar que gestores públicos gozem de regalias, conforme notícia reverberada em O Antagonista em março de 2018.
Mas o protesto foi ignorado. Um ano e meio depois, a defesa dos privilégios da classe continua sendo um dos maiores obstáculos para o sucesso da reforma da Previdência. Na primeira quinzena deste mês, o presidente da Comissão Especial deixou claro que os servidores não podem tratar a aposentadoria como uma renda complementar.
O povo brasileiro gasta muito com regalias. Se, por exemplo, a PEC 435 for bem sucedida e todas as férias tiverem o limite máximo de 30 dias, os cofres públicos podem economizar até R$ 1,15 bilhão por ano.
Nessa década, o país já tinha reservado ao menos R$ 4,3 bilhões para auxílio-moradia dos três poderes. De 2009 a 2016, o benefício cresceu 6.312% no judiciário.
Para efeito de comparação, a soma de todos os “penduricalhos” pagos a membros do Ministério Público em 2017 superou em R$ 100 milhões o custo da intervenção federal tocada pelo governo Temer no Rio de Janeiro.
– Privilégio supremo
Mas poucas instituições têm conseguido irritar tanto a opinião pública quanto os tribunais superiores. Nas últimas instâncias, os membros se habituaram a eventos em ilhas paradisíacas, sessões de cinema e prolongamento de feriados que não se importam nem com o risco de um ex-presidente ser preso:
Em 2017, os membros do TSE chegaram a receber R$ 1.012,89 pelo comparecimento a uma sessão que durou pouco mais de um minuto. Cada segundo do julgamento rendeu R$ 48,23 a cada um dos ministros presentes.
– Que comam lagostas
Mas poucos casos são tão emblemáticos quanto a contratação de um bufê de luxo que o STF licitou por R$ 1,1 milhão. Carla Zambelli tentou suspender a gastança.
É indubitavelmente vergonhoso e antiético o patrimônio público arcar com altíssimos gastos em bebidas alcoólicas a serem consumidas na Corte Constitucional.
Carla Zambelli, deputada federal pelo PSL
Ignorando questionamentos do Ministério Público, o Supremo acertou a contratação do bufê por R$ 482 mil. Dois dias depois, a juíza Solange Salgadoacolheu o pedido da deputada federal. Mas o STF recorreu. E, no dia seguinte, o TRF1 cassou a decisão por intermédio de um plantonista.
– Rindo por últimoManifestantes fantasiados de lagosta na marcha de 26 de maio.
Mas ri melhor quem ri por último. As lagostas do STF não foram esquecidas na marcha que tomou as ruas do país em 26 de maio. Nem por artigo de Vinicius Mota no dia seguinte:
Desde 2013, circula nas redes sociais o “mene” do “lagostim liberal”. “Mene” não é “meme”. Nem lagostim é lagosta. Mas, seis anos depois, o sentimento se encaixa perfeitamente com o contexto.
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