A investigação sobre o Cruzeiro
A Polícia Civil de Minas Gerais instaurou inquérito para apurar denúncias envolvendo o Cruzeiro.
A Polícia Civil de Minas Gerais instaurou inquérito para apurar denúncias sobre pagamentos suspeitos, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro envolvendo o Cruzeiro. Segundo a TV Globo, os investigadores já ouviram 15 pessoas, entre funcionários, ex-funcionários, dirigentes e prestadores de serviços que realizaram transações com o clube.
O Cruzeiro emitiu uma nota oficial na noite de domingo (26), antes mesmo da veiculação pelo Fantástico da primeira reportagem sobre o assunto. A diretoria, porém, não quis gravar entrevista para o programa.
Entenda o que pesa contra o clube e as reações à reportagem.
1. O empréstimo de ‘Messinho’

O fato mais grave trazido pelo Fantástico é um contrato assinado pelo Cruzeiro com o empresário Cristiano Richard dos Santos Machado. Sócio de firmas de locação de veículos, ele não tem atuação no futebol.
Em março de 2018, Cristiano Richard formalizou um empréstimo de R$ 2 milhões para o Cruzeiro. Um mês depois, ele e o time assinaram um segundo documento. O clube alegou não ter condições financeiras para quitar o empréstimo, e aceitou pagar a dívida com frações de direitos desportivos de dez jogadores, entre profissionais e de base.
Entre os atletas cujos percentuais foram cedidos a Cristiano Richard está Estevão William, o Messinho, de 12 anos.
Há pelo menos dois problemas com isso.
Primeiro, a Fifa proíbe. Desde 2015, apenas clubes e os próprios atletas podem ter partes de direitos econômicos, o que antigamente era chamado “passe”.
Em segundo lugar, a legislação brasileira também proíbe, no caso dos jogadores menores de idade. Os potenciais atletas só podem assinar contratos profissionais a partir dos 16 anos. Antes disso, podem no máximo ter contratos de formação, sem direitos econômicos.
Ou seja: o Cruzeiro pagou um empréstimo com algo que legalmente não pode oferecer.
2. A madeireira

Em balancete do Cruzeiro para 2018 consta pagamento de R$ 369 mil para a AV&S Consultoria Desportiva Ltda. Só que o endereço registrado no CNPJ abriga uma madeireira, com o nome AV&S Madeiras no muro e uma placa de “vende-se”.
Na segunda (27), um dos sócios da empresa, Eduardo Diniz, contou que o repasse é referente aos direitos do lateral-direito Vitinho, que foi vendido pelo Cruzeiro ao Cercle Brugge, da Bélgica, em junho de 2018. “Minha sede somente mudou de lugar, mas eu continuo lá, tenho a minha extração de madeira”, disse.
3. As dívidas

A situação financeira do clube também não é das melhores. A dívida saltou de R$ 384 milhões para R$ 520 milhões em apenas um ano, o de 2018, o primeiro da gestão de Wagner Pires. Essa informação já havia sido divulgada em 15 de abril, antes da votação do balanço por parte dos conselheiros.
Os três integrantes do Conselho Fiscal do clube renunciaram de uma só vez em 8 de maio. A principal motivação foi a falta de acesso a documentos. Nesta terça (28), os dois suplentes também saíram, deixando o conselho vazio. Ubirajara Pires, que deixou o conselho em maio, foi um dos entrevistados pelo Fantástico.
Já o Conselho Deliberativo, que é maior, foi convocado pela diretoria a autorizar em fevereiro a tomada de um empréstimo de R$ 300 milhões com um fundo estrangeiro.
4. O que diz o Cruzeiro

Em nota publicada no domingo (26), antes de a reportagem do Fantástico ir ao ar, o presidente Wagner Pires do Sá (à esq.) escreveu que adversários derrotados na última eleição do clube “têm insistido, nos bastidores, em tentar tumultuar o ambiente do Cruzeiro, com o auxílio de um pequeno grupo, plantando notícias junto a alguns profissionais da mídia nacional”.
Acrescentou que um dos conselheiros “teve acesso a documentos sigilosos e os divulgou de maneira proibida para o público externo, mesmo em se tratando de registros de cunho interno, de uma entidade privada”.
Já em entrevista coletiva nesta segunda (27), o vice-presidente de futebol, Itair Machado, afirmou que “o Cruzeiro em momento algum vendeu ‘de menor’ (…) Mas ele [Messinho] entrou numa cesta de garantia para o empréstimo”. O contrato, porém, usa os termos ‘dação em pagamento’ e ‘quitação do empréstimo’.
Muita bola ainda vai rolar.
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