Rodolfo Borges na Crusoé: Ilusões perdidas com o Botafogo
Balzac diria que o alvinegro carioca caminhou durante 2024 em uma atmosfera cheia de miragens, em cima de um pedestal imaginário
A Comédia Humana, de Balzac, é composta por uma série de títulos desinteressantes, como O Pai Goriot, Ferragus, e A Duquesa de Langeais, entre outros nomes que escondem sua profundidade para quem lê apenas a capa.
Mas há também na obra do francês expressões que se tornaram clássicos, como A Mulher de 30 Anos e Ilusões Perdidas, que estão no mesmo patamar de Crime e Castigo, A Educação Sentimental, A Montanha Mágica e O Paraíso Perdido.
Ilusões Perdidas, que resume a desventura do poeta provinciano Lucien de Rubempré em Paris, vai muito além da própria história. Vai além o bastante para alcançar o Botafogo de 2025, que desfaz magicamente, quase com a mesma intensidade com que fez, as esperanças dos torcedores brasileiros com as sociedades anônimas do futebol (SAF).
“Todos ao seu redor continuaram a levantar o pedestal imaginário em que ele se colocou. Mantido por todos, tanto pelos amigos quanto pela fúria dos inimigos em suas ambiciosas convicções, ele caminhava em uma atmosfera cheia de miragens”, diz o narrador de Balzac sobre a incursão de Lucien no jornalismo parisiense.
Gangorra
O Botafogo chegou na temporada de 2024 aonde até sua torcida já tinha desistido de almejar. O clube, que amargara rebaixamentos nas últimas décadas e estava quebrado financeiramente, tornou-se campeão brasileiro pela segunda vez e ganhou uma Libertadores da América inédita, de forma épica e incontestável — pelo menos dentro de campo, porque os gastos do clube, bem acima de seus rendimentos, foi questionado.
No ano seguinte, sem treinador e abandonado por diversos dos jogadores — reunidos a peso de ouro — que carregaram o time para os títulos de 2024, o time é eliminado do Campeonato Carioca com a pior colocação da sua história. O Botafogo tem dono, e a prioridade do americano John Textor são seus outros clubes, na França e na Inglaterra.
Quem manda é Textor, e não há o que fazer diante da impotência demonstrada pelo outrora imponente Botafogo diante do Flamengo ou do Racing nas finais da Supercopa e da Recopa, nem a esperança de um impeachment que nunca vem, como ocorre no Corinthians, outro time que gastou muito mais do que tem, e sem ter um dono bilionário, como o Botafogo.
O drama das SAFs
O drama das SAF se impôs rápido demais em General Severiano, e já tinha alcançado o Cruzeiro, o Coritiba e o Cuiabá, cujos torcedores esperavam resultados mais rápidos depois que os clubes passaram a ter dono.
“Fora do mundo literário (…) não há uma só pessoa que conheça a horrível odisseia pela qual se chega ao que se deve chamar, segundo o talento, moda, voga, reputação, fama, celebridade, favor público, esses diferentes degraus que levam à glória e que nunca a substituem”, diz ao jovem Lucien o experimentado jornalista Étienne Lousteau, aqui segue:
“Esse fenômeno moral, tão brilhante, é composto de mil acidentes que variam com tal rapidez que não há exemplo de dois homens chegando pelo mesmo caminho.”
O Botafogo acelerou demais no início…
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