Alexandre Soares Silva na Crusoé: Precisamos de um Bukele do Silêncio
Precisamos lotar prisões da noite para o dia com centenas de milhares de pessoas que fizeram barulho demais
A política atual é espiritual no sentido de que é uma guerra entre cultos ao antepassados. Todo debate político dos últimos dez anos se limita a algo assim:
- Meus antepassados apanharam muito dos antepassados de vocês;
- Meus antepassados bateram muito nos antepassados de vocês, e eu tenho vergonha disso;
- Meus antepassados bateram muito nos antepassados de vocês, e eu me orgulho disso;
- Meus antepassados descobriram a pizza antes dos seus (ou os papiros, o astrolábio, o número zero, a perspectiva, as catedrais, a civilização, o requebro, a malemolência, etc).
Todas as questões políticas que não sejam culto aos antepassados foram postas em segundo plano: pobreza, ecologia, o que seja.
Pobres e florestas foram abandonados num armário, como os brinquedos semiquebrados de uma criança volúvel.
O único assunto político que tem relevância no mundo contemporâneo, e que não tem diretamente a ver com o culto aos antepassados, é “pessoas que querem ou quiseram sofrer operações nos genitais para simular os genitais do sexo oposto”, o que deve incluir talvez mil e oitocentas pessoas no mundo inteiro.
Só os descendentes de um único grupo de antepassados abandonaram o culto aos antepassados, ou adotaram o culto aos antepassados dos outros; mas isso não vale nada para impedir a guerra em si.
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É preciso que exista um Bukele do Silêncio, e prisões lotadas da noite para o dia com centenas de milhares de pessoas que fizeram barulho demais, ouviram música alto na praia ou no carro de janelas abertas, ouviram áudios sem fones no metrô, ouviram áudios sem fone em restaurantes, ou falam gritando.
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Na tabacaria que frequento, vão deixar de vender latinhas de tabaco importado porque receberam “uma notificação da Receita“.
É todo dia motivo pra odiar o Estado.
Barroso, gravatas, Janja, sei lá mais o quê. Todo dia.
Não entendo ser brasileiro e rir de libertários, anarquistas, liberais, ultraliberais, neoliberais, ancaps. Todo mundo que não está nessa lista é que é risível.
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Pra mim e alguns amigos é uma diversão nos fazer de mais direitosos do que realmente somos pra assustar algumas pessoas, mas às vezes a cola de teatro deixa a máscara meio grudada na nossa cara. Outro dia estava tentando tirar o meu bigode de Hitler, mas estava difícil de sair.
Tem um fingimento em direção contrária também, em que em algumas ocasiões nos fazemos de menos direitistas para continuarmos sendo recebidos em certos lugares sem levar cusparadas na cara. Os dois fingimentos acontecem ao mesmo tempo.
Essa é a vida na internet e a vida em público de modo geral: 90% exageros, distorções e atenuações do que realmente pensamos e sentimos. E tudo bem que seja assim, talvez. Mas pelo menos dentro das nossas cabeças deveríamos saber o que é a verdade e o que é só uma imagem que estamos querendo projetar.
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Como durante os próximos meses pretendo me dedicar ao álcool, ao tênis de mesa profissional e aos cochilos em redes, esta é a última coluna minha em Crusoé.
Foram quatro ou cinco anos de colunas aqui (estou tentando lembrar quando comecei, ao mesmo tempo em que tenho preguiça de verificar exatamente no site; mas foi naquele período áureo antes da Covid e depois da Revolução Francesa).
Apreciei imenso os leitores que tive aqui, tanto…
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