Rodolfo Borges na Crusoé: De volta ao ventre do Atlântico
Depois de reforçar as seleções europeias, os filhos de africanos optam por defender a pátria dos pais e mudam o jogo
Vinte dos 26 jogadores da Seleção de Marrocos que assustou o Brasil no empate por 1 a 1 na estreia da Copa do Mundo deste ano não nasceram no país que representam.
Isso é fruto de uma campanha da federação marroquina de futebol para “trazer de volta os talentos que pertencem à terra”, lançada em 2014 para atrair jogadores da diáspora africana na Europa, filhos de marroquinos que deixaram o país em busca de uma vida melhor.
O sucesso do projeto é evidente. A Seleção marroquina está invicta há 38 jogos, ganhou a última Copa Africana de Nações — numa controversa final contra Senegal, que acabou vencida por W.O. — e terminou a última Copa do Mundo, de 2022, em quarto lugar, após ser eliminada pela França.
Há cerca de 160 jogadores nessa mesma condição, representando seleções de países como a República Democrática do Congo, que empatou com a favorita Portugal na estreia e tem 20 jogadores nascidos em outros país (a maioria deles, 11, na antiga colônia França).
No total, são 310 (um quarto do total) os jogadores que defendem seleções de países nos quais não nasceram — a equipe de Curaçao, por exemplo, só tem um membro nascido no país caribenho.
Colonização reversa
A adesão de jogadores nascidos na Europa a seleções africanas de menor expressão ocorre na sequência de uma colonização reversa ocorrida anos antes, que aumentou a competitividade interna e melhorou o desempenho de seleções europeias.
A Seleção francesa, que domina a Copa do Mundo há duas edições, com seu segundo título mundial, conquistado em 2018, e o vice-campeonato de 2022, só veio a ser campeã pela primeira vez, em 1998, graças ao protagonismo do filho de argelinos Zinedine Zidane.
Hoje, o filho do ex-jogador, Luca Zidane, defende o gol da Argélia.
“Na Europa, meus irmãos, vocês são, em primeiro lugar, negros, depois, cidadãos de segunda classe, e definitivamente estrangeiros, e mesmo que isso não esteja escrito na Constituição, algumas pessoas leem isso na sua pele”, diz uma das personagens de O Ventre do Atlântico (Malê), da senegalesa Fatou Diome, a garotos que sonham em brilhar no futebol francês.
O livro conta a história dos irmãos Salie, que foi tentar a sorte como escritora na França, e Madické, que é obcecado pelo zagueiro italiano Paolo Maldini e almeja tentar a sorte nos gramados franceses.
O fato é que a competição para participar de seleções como França, Espanha, Holanda e Portugal é muito maior do que nas de Senegal, que tem 12 repatriados, ou Cabo Verde, que tem 15 estrangeiros e estreou na Copa com um surpreendente empate com a Seleção espanhola.
De volta para casa
Esses cerca de 160 jogadores que optaram por defender as cores dos países africanos de seus pais provavelmente não…
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