Rodolfo Borges na Crusoé: A ortodoxia da amarelinha
A tradição, que Chesterton definiu como a democracia dos mortos, parece ter atrapalhado os negócios da Nike
A tradição é a democracia dos mortos, escreveu Chesterton em Ortodoxia.
“Tradição significa dar votos à mais obscura de todas as classes, nossos ancestrais”, diz o inglês, que acrescenta: “A tradição se recusa a se submeter à pequena e arrogante oligarquia daqueles que simplesmente andam por aí”.
Aqueles que simplesmente andam por aí imaginaram que seria uma boa ideia vestir a seleção brasileira de futebol de vermelho. Talvez faça sentido do ponto de vista do marketing, mas, politicamente, a novidade apenas acirraria a disputa política no país.
A esquerda brasileira teria uma camisa para torcer na Copa do Mundo — ainda falta se classificar — e ir votar em 2026, já que a amarelinha foi apropriada pela direita. O Brasil se dividiria de forma ainda mais clara, colorida, enquanto torce para a mesma equipe.
Tradição
A questão política acirrou os debates, e os incomodados se escoraram na tradição de usar azul no uniforme dois para argumentar contra a mudança. A seleção brasileira é tão importante que a hoje emblemática camisa amarela foi adotada por meio de concurso.
Até 1954, o Brasil só tinha entrado em campo de azul ou branco. A conquista da Copa de 1958 começou a construir a mítica da camisa canarinho, que desembocou na regra da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que limita as opções para o uniforme de jogo às cores da bandeira brasileira — azul, amarelo, verde e branco.
A confederação reafirmou o “compromisso com seu estatuto” ao dizer que “as imagens divulgadas recentemente de supostos uniformes da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026 não são oficiais”. A CBF disse ainda que “a nova coleção de uniformes para o Mundial ainda será definida em conjunto com a Nike”.
Negócios
Os uniformes de futebol se tornaram um negócio bilionário. Quanto mais variações dos modelos, mais dinheiro circulando. Os clubes passaram a atualizar seus kits ano a ano desde a década de 1990, com as camisas titular e reserva, e uma terceira opção promocional por temporada, além de versões de passeios e agasalhos, entre outros itens.
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Talvez não houvesse tanto barulho se a versão alternativa especulada para a seleção não fosse vermelha, já que pelo menos os torcedores que acompanham o futebol mais de perto estão acostumados com a variação de cores e modelos de seus próprios times a cada temporada.
O poste branco
Diante das reações emocionadas, contudo, é de se questionar se vale a pena abrir mão de uma marca…
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Comentários (1)
Marian
04.05.2025 11:06Aham ... Mas a minha camisa jamais será vermelha.