O cérebro se acostuma a trapaças? Uma análise científica da fraude no INSS
Autor do livro 'A arte de enganar a si mesmo', Luiz Gaziri escreve artigo exclusivo para O Antagonista
por Luiz Gaziri*
Todos nós já passamos por essa situação: segundos após entrar pela primeira vez na casa de um amigo, você percebe pelo cheiro que ele tem um cachorro em casa; no entanto, minutos mais tarde você se adapta ao odor do ambiente a ponto de não o sentir mais. Isso significa que o seu cérebro tem uma habilidade natural em se acostumar com odores.
Mas será que da mesma maneira que nosso cérebro se acostuma com o cheiro de um ambiente, ele se habitua com comportamentos desonestos? E qual a relação dessa hipótese com a recente fraude no INSS?
Essas eram as perguntas que a renomada neurocientista da University College London Tali Sharot queria responder.
Experimento
Em um experimento, dois participantes eram colocados em máquinas de ressonância magnética separadas para realizar a seguinte tarefa: o primeiro participante veria imagens em alta definição de um pote transparente cheio de moedas durante três segundos, enquanto o segundo veria a mesma imagem em baixa resolução.
Em seguida, o primeiro participante deveria informar ao segundo a quantidade aproximada de dinheiro que havia dentro do pote e, então, o segundo deveria informar a estimativa ao cientista. Esse procedimento se repetia por sessenta vezes, já que potes com quantidade diferentes eram apresentados a cada rodada – e é aqui que o estudo começa a ficar mais interessante.
O cientista explicava aos participantes que eles iriam ganhar incentivos financeiros para participar do estudo. Em algumas ocasiões, o primeiro participante era informado, de maneira privada, que ganharia incentivos financeiros maiores caso o segundo participante superestimasse a quantidade de dinheiro dentro dos potes. O primeiro participante também ficava ciente de que o segundo participante seria penalizado financeiramente pelos erros.
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Trapaças
Em outras ocasiões, os cientistas informavam que ambos os participantes ganhariam bons incentivos caso o segundo informasse um valor mais preciso.
Em qual dos dois grupos a quantidade de trapaças foi maior?
Não é preciso ser um gênio para imaginar que os índices de trapaça foram maiores quando o primeiro participante lucrava com o erro do segundo; no entanto, os cientistas ficaram incrédulos ao constatar que os primeiros participantes começavam trapaceando pouco, mas, com o passar das rodadas, eles gradativamente aumentavam a magnitude de suas trapaças.
Percebe a coincidência com a fraude do INSS, que começou com um roubo de 600 milhões de reais e, quatro anos depois, atingiu 2,8 bilhões de reais?
Como você já deve ter projetado, não havia trapaça quando o primeiro participante era recompensado de acordo com a precisão do segundo, o que demonstra que os participantes não cometiam erros na primeira fase do estudo por serem míopes ou apresentarem quaisquer problemas de visão, mas que sabiam exatamente o que estavam fazendo.
Surpresa
Mas esse estudo ainda reservava uma bela surpresa.
Ao terem seus cérebros monitorados pela máquina de ressonância magnética, todas as vezes que os participantes cometiam uma trapaça, eram detectados aumentos na atividade da amídala e da ínsula: áreas do cérebro relacionadas com sentimentos de estresse, emoções negativas e dor.
Isso significa que o comportamento desonesto trouxe grande desconforto aos participantes; porém, com o passar das rodadas, a atividade nessas áreas passou a ter uma redução gradual, revelando que o cérebro se acostuma e a pessoa passa a não sentir mais remorso por sua trapaça. Essa diminuição na sensibilidade resulta no indivíduo trapaceando montantes cada vez maiores.
No entanto, a maior revelação do estudo ainda estava por vir.
Revelação
No final do experimento, os participantes eram perguntados sobre qual estratégia haviam utilizado no decorrer das rodadas, e apenas 1% deles disseram que sua estratégia era aumentar a trapaça a cada rodada, ou seja, 99% dos participantes se tornaram mais desonestos com o passar do tempo, sem perceber que estavam cometendo esse deslize, o que demonstra que a escalada de comportamentos antiéticos acontece sem que tenhamos consciência.
Ao receberem uma explicação dos cientistas sobre o que o estudo investigava, os participantes se demonstravam surpresos e envergonhados por terem se tornado mais desonestos sem perceber.
Analisando a realidade das nossas instituições públicas, onde figuras famosas por seus comportamentos questionáveis se encostam há décadas, torna-se fácil entender não somente o escândalo do INSS, bem como rachadinhas, petrolões, mensalões e demais episódios que nos assombram desde a independência.
Leis que limitam tempos de mandato, punições severas e auditorias independentes ajudariam a solucionar esses problemas. Resta saber se políticos e magistrados aprovariam leis que tiram deles mesmos a oportunidade de saquear os cofres públicos. Enquanto isso não acontece, o governo continua sendo o primeiro participante desse experimento, e o povo, o segundo.
*Luiz Gaziri é professor de Ciências Comportamentais, palestrante e autor do livro ‘A arte de enganar a si mesmo’. Ele foi o convidado do Podcast OA! de 28 de abril de 2025, que pode ser visto no vídeo abaixo.
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Comentários (3)
Ita
04.05.2025 13:07É essa nossa situação: quem irá contra os seus benefícios????? difícil. Somente o milagre da educação poderia mudar esse quadro mas depende de quem é beneficiado por ele, minha conclusão: só um milagre...
Claudemir Silvestre
04.05.2025 12:16Problema de LULA e esta turma da esquerda no poder …. É falta de VERGONHA NA CARA !!! Pilantragem mesmo !!!
Marian
04.05.2025 11:04Como assim? A pil@ntragem agora tem uma desculpa para algum tipo de condição mental? Não! A questão é mor@l e reside no extrato bancário mesmo. Perder tempo estudando trap@ceiros! ora bolas.