Roberto Reis na Crusoé: Flávio e a diferença entre herdar uma base e conquistar um país
Eleitores do meio flutuante, fora do petismo e do bolsonarismo, exigem um padrão mínimo de segurança, clareza e idoneidade
Existe uma leitura fácil sobre a polarização brasileira: o país teria se dividido entre dois campos ideológicos porque a população passou a acompanhar política com maior intensidade.
Essa interpretação contém uma parte da verdade, mas deixa escapar o mecanismo principal. Em muitos casos, apenas transferiu a política do campo da avaliação racional para o campo do pertencimento.
Essa distinção ajuda a compreender por que fatos relevantes podem produzir efeitos muito diferentes sobre grupos distintos.
Muitos clientes meus achavam, por exemplo, que o derretimento de Flávio Bolsonaro depois do áudio envolvendo Vorcaro seria muito, muito maior.
Um escândalo capaz de alterar imediatamente a percepção de empresários, jornalistas, investidores e formadores de opinião pode demorar semanas para atravessar toda a sociedade. Em algumas parcelas do eleitorado, jamais atravessará.
A informação chega, mas encontra uma estrutura psicológica rígida e montada para absorver o impacto, reinterpretar o episódio e preservar a crença anterior.
Um livro ainda a ser lançado, Divergent: How to Outsmart the Herd, do mestre Décio Fábio, que estou tendo o prazer de ler antecipadamente, oferece uma hipótese interessante para explicar esse fenômeno.
A obra descreve um ciclo em que pertencimento, racionalização, seleção conveniente de evidências e vantagem comunicacional das mensagens simples atuam de forma intrinsecamente conectada.
O resultado é um ambiente em que a opinião dominante se protege totalmente dos fatos, pune o dissenso e premia narrativas capazes de circular com facilidade. A famosa solução fácil para problemas difíceis.
Essa arquitetura possui enorme utilidade para interpretar a eleição presidencial de 2026.
O piso nasce desse pertencimento…
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