Retrospectiva: o dia que o Brasil perdeu Hermeto Pascoal
Sua obra, marcada pela experimentação, resistiu a rótulos musicais. Miles Davis o definiu como “o músico mais impressionante do mundo”
O compositor, arranjador e multi-instrumentista Hermeto Pascoal (foto) morreu em 13 de setembro aos 89 anos. Conhecido como o “bruxo dos sons”, ele estava internado no Hospital Samaritano Barra, no Rio de Janeiro. A instituição informou que a morte ocorreu às 20h22, em decorrência de falência múltipla dos órgãos, após complicações respiratórias derivadas de fibrose pulmonar avançada.
A notícia foi confirmada nas redes sociais do músico, em comunicado assinado por familiares e pela equipe.
“Com serenidade e amor, comunicamos que Hermeto Pascoal fez sua passagem para o plano espiritual, cercado pela família e por companheiros de música. No exato momento da passagem, seu Grupo estava no palco, como ele gostaria, fazendo som e música”, diz a nota.
O texto pede que a tristeza não tome conta dos admiradores: “Escutemos o vento, o canto dos pássaros, o copo d’água, a cachoeira, a música universal segue viva”. A família informou que haverá cerimônia aberta ao público e pediu respeito e privacidade.
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, lamentou a perda na época. Ela escreveu nas redes sociais: “Lamento profundamente a partida de Hermeto Pascoal, nosso eterno ‘Bruxo’. Um mestre que transformou a música brasileira em alquimia sonora, ousando ir além do imaginável. Hermeto é patrimônio da nossa cultura”.
Nos últimos meses, Pascoal cancelou apresentações por causa da saúde debilitada.
O legado do “bruxo dos sons”
Nascido em Lagoa da Canoa (AL), em 1936, Hermeto demonstrou interesse pelos sons da natureza desde criança. Autodidata, começou a tocar acordeom aos 10 anos e ganhou fama pela capacidade de transformar chaleiras, garrafas e até brinquedos em instrumentos.
Sua obra, marcada pela experimentação, resistiu a rótulos musicais. Miles Davis o definiu como “o músico mais impressionante do mundo”.
Três vezes vencedor do Grammy Latino, Hermeto recebeu títulos de Doutor Honoris Causa da Juilliard, em Nova York, e de universidades federais no Brasil.
Em 2023, lançou o disco “Pra você, Ilza”, em homenagem à companheira de vida, considerado pela Associação Paulista de Críticos de Arte um dos melhores álbuns brasileiros de 2024. No mesmo ano, ganhou a biografia “Quebra tudo! — A arte livre de Hermeto Pascoal”, escrita por Vitor Nuzzi.
Hermeto também integrou o Quarteto Novo, ao lado de Airto Moreira, Heraldo do Monte e Theo de Barros, grupo que revelou “Ponteio” em 1967. Mais tarde, foi levado aos Estados Unidos, onde gravou discos e se aproximou de Miles Davis.
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