Porteiro e repórter são a maior fonte de notícias da Zona Sul carioca
Dupla improvável criou páginas no Instagram com 380 mil seguidores, influenciando até a mídia tradicional, mas enfrenta críticas
Uma trajetória marcada por frustrações com a imprensa tradicional levou um porteiro e um jornalista desencantado a construir dois dos principais canais de informação da Zona Sul do Rio de Janeiro. Desde 2022, Leonardo (o porteiro) e Diego Bino (repórter) administram páginas com 380 mil seguidores e 43 milhões de visualizações mensais, e se tornaram referência para cidadãos e produtores de grandes emissoras.
Leonardo criou seu primeiro perfil ainda durante a pandemia com o objetivo de registrar incidentes de trânsito e alertas de segurança comunitária. A página original chegou a 60 mil seguidores antes de ser vendida em 2022 para um representante político. Deprimido com a venda, ele criou novos perfis um mês depois, incluindo Zona Sul Urgente e Alerta Rio.
Diego Bino, que deixou o Ceará em dezembro de 2022, havia trabalhado em rádio local apresentando programas matinais e fazendo reportagens para a tarde. Alcançou 20 mil seguidores em uma cidade com 18 mil habitantes — dado relevante da região noroeste cearense. Bino se desentendeu com o poder local ao cobrir críticas à administração e optou por retornar ao Rio em busca de maior liberdade editorial.
A parceria que transformou o jornalismo de bairro
Bino começou a publicar reportagens em seu Instagram marcando a Zona Sul Urgente. Os perfis convergiram, e os administradores propuseram uma colaboração: Bino seria o rosto das reportagens e entrevistas, enquanto Leonardo mantinha a gestão operacional. Com o tempo, Bino assumiu também a administração do Alerta Rio, que contava com 90 mil seguidores.
Os números cresceram significativamente. Zona Sul Urgente alcança 380 mil seguidores e 43 milhões de visualizações mensais. A influência se expandiu tanto que produtores de TV tradicional acompanham as páginas em busca de pautas. Rodrigo Monteiro, repórter da CNN Brasil, afirma procurar a dupla frequentemente para obter material.
Porém, a exposição trouxe riscos. Após receber ameaças de facções locais que identificaram sua profissão, Bino precisou se mudar de favela e se dissociar publicamente do Alerta Rio, mantendo foco na Zona Sul Urgente.
Jornalismo descentralizado sob pressão ética
Pesquisadores identificam neste fenômeno uma resposta à perda de conexão entre a imprensa tradicional e a população. Murillo Camarotto, do Reuters Institute for the Study of Journalism, observa que iniciativas semelhantes em outras regiões do Brasil construíram audiências mais fiéis que as dos jornais convencionais.
Jacqueline Deolindo, professora da UFF, contextualiza que a produção cuidadosa de notícias é cara, e redes sociais favorecem modelos mais ágeis. Contudo, ela ressalva riscos éticos: a publicação de vídeos de crimes com rostos não censurados, mesmo em contexto de flagrante, circula evidências não investigadas formalmente.
Bino rebate as críticas: “Vídeos sem censura não são publicados de forma irresponsável. Esse tipo de conteúdo só é divulgado quando os fatos são devidamente verificados e constituem um crime em flagrante”, afirmou. Para ele, a exposição contribui para identificação rápida de suspeitos e resposta das autoridades.
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