Pivô da crise com Michelle no Ceará publica vídeo
Pré-candidato ao Senado, Alcides Fernandes reclamou de "ignorância a respeito do que é o Ceará" e pediu "maturidade" para vencer o PT
Pré-candidato ao Senado no Ceará, Alcides Fernandes (PL, foto) publicou um vídeo em resposta ao desabafo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sobre a aliança com Ciro Gomes (PSDB), que ele classificou como “vídeo infeliz”, por conter “inúmeras alegações fundadas”.
Alcides é pai do deputado federal André Fernandes (PL-CE), principal alvo da bronca pública de Michelle que deu início ao imbróglio no Ceará, em novembro de 2025.
A presidente do PL Mulher tem justificado sua oposição à aliança com Ciro pelas críticas do ex-governador à família Bolsonaro, mas deixou claro no vídeo que seu incômodo também se explica pela escolha de Alcides para ser candidato ao Senado, e não da vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL) vice-presidente do PL Mulher e sua opção para concorrer.
“O vídeo só serviu para ser usado pelo PT para ecoar por seus discursos e interesses, e a gente sabe que, se o PT está feliz, coisa boa é que não é. O vídeo basicamente tenta descredibilizar totalmente todo esforço realizado nos últimos anos para arrancar do poder a facção que se apoderou do nosso estado, [de] que você sabe bem o nome e a sigla, e reduz esse trabalho inteiro a um projeto pessoal de poder, a falta de coerência e a traição de valores”, reclama Alcides no vídeo.
“Eu ouço isso com uma profunda tristeza, porque apesar de compreender a perspectiva de quem pensa assim, trata-se de uma demonstração de uma completa ignorância a respeito do que é o Ceará, da sua complexidade e da sua atual situação”, completou, rejeitando a “narrativa” de que sua pretensão ao Senado se trata de “um projeto pessoal de poder”.
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Facções
“Neste exato momento que eu gravo esse vídeo, tem um comerciante na periferia de Fortaleza contando moedas para pagar pedágio a uma facção criminosa só para ter o direito de manter a porta da sua mercearia aberta. Neste exato momento, existe cearenses reféns do crime organizado, sendo obrigados a utilizar a internet fornecida pelo crime e a pagar a taxa de água cobrada pelo crime. O nosso estado virou rota internacional de drogas. Nossos portos viraram escoador. O PT entregou a população na mão de um poder paralelo. O Ceará hoje respira por aparelhos. Quatro das cinco cidades mais violentas do país estão aqui. É essa realidade cruel que o povo cearense está tendo que enfrentar todos os dias há anos. Foi esse cenário desesperador que nos motivou a procurar uma mudança concreta ainda em 2024, durante o segundo turno, quando André Fernandes, à época candidato a prefeito de Fortaleza, iniciou uma conversa com Roberto Cláudio em busca de apoio do grupo de Ciro Gomes. Tudo isso com aval e apoio do presidente Bolsonaro. O próprio presidente Bolsonaro falou publicamente naquele momento que estava aberto a conversar com o Ciro Gomes”, conta Alcides no vídeo, expondo um vídeo em que Jair Bolsonaro dizia, à época, que “conversaria com Ciro sem problema nenhum”.
“Mas calma, o presidente não é traidor da direita. Muito pelo contrário, ele apenas teve a sensibilidade de entender de forma muito clara a situação do nosso estado. E não se enganem, não dá para falar em construir aliança somente no segundo turno, como a Michelle sugere em seu vídeo. Michelle, nós nunca atacamos você, nem mesmo quando você fez aquilo conosco aqui em Fortaleza. Mas falar em alianças no segundo turno no Ceará é mais uma triste demonstração de desconhecimento sobre a realidade do Ceará. Não podemos esquecer que na última eleição para governador aqui no Ceará, o PT levou no primeiro turno. Por termos uma oposição dividida, não existiu o segundo turno”, argumenta Alcides, referindo-se à bronca de Michelle em seu filho.
Segundo ele, “infelizmente a direita sozinha ainda não possui a força necessária para derrotar o PT”. “O próprio senador Eduardo Girão, que agora ataca uma aliança com Ciro por supostamente defender princípios e valores, venceu em 2018 com apoio do Ciro Gomes”, lembra Alcides, destacando que Girão obteve apenas 1% dos votos na disputa pela Prefeitura de Fortaleza em 2024.
“Esse é o cenário completo, [em] que estamos buscando vencer. E que me leva a refletir: nós estamos em condições de brincar de roleta russa com a vida do cearense, esperando essa ou aquela circunstância, que querem que eu diga para o pai ou para a mãe de família que está sendo extorquida pela facção agora? Que espere mais um pouco para ver se dá segundo turno, que aguente mais alguns anos até termos o cenário perfeito?”, questiona.
“O Ceará não vai aguentar”
Segundo ele, “o Ceará não vai aguentar”, e “foi por isso que essa aliança começou a ser desenhada”.
“Como eu já disse, não começou hoje, não foi uma ideia minha, nem foi feita às escondidas, como o vídeo da Michele sugere. Tudo foi construído à luz do dia de forma coletiva, junto com a nossa base. Basta lembrar da reunião que aconteceu no dia 29 de maio de 2025 em Fortaleza, com toda a bancada do PL do Ceará. Cada parlamentar deu a sua visão. No fim, o presidente Bolsonaro deu o aval para apoiarmos o Ciro Gomes ainda no primeiro turno. Inclusive, pediu para um de nós ligar para o Ciro, [em] viva voz. Porém, o Ciro estava em palestra e não conseguiu atender. Nessa mesma reunião, o próprio presidente Bolsonaro escolheu o meu nome Alcides Fernandes para disputar o Senado. O presidente perguntou, inclusive, se alguém era contra essa decisão, e ninguém contestou”, conta, acrescentando:
“Dizer que isso foi feito pelas costas do presidente Jair Bolsonaro no momento em que ele não pode opinar é faltar com a verdade, que é pública. Não que eu acredite que a Michelle esteja mentindo propositalmente. Pode ser que ela realmente não tenha ficado sabendo disso ou que o presidente, por algum motivo, não tenha repassado o que ocorreu. Mas essa é a realidade dos fatos. Todos esses parlamentares, os que participaram desta reunião, são testemunhas disso.”
“Maturidade”
O pré-candidato disse que tem “total consciência de todos os problemas que aconteceram no passado entre Ciro e Bolsonaro”. mas que aprendeu “com um grande líder que existem situações excepcionais em que a gente tem que engolir uma ofensa ou até algo mais sério, principalmente quando o que está em jogo é a sobrevivência de um povo”.
“Foi essa mesma maturidade que fez o Bolsonaro apoiar e se aliar a Sérgio Moro em 2022 contra Lula e agora em 2026, mesmo depois de tudo que aconteceu entre eles e mesmo sofrendo as consequências disso até hoje. Isso não é traição aos valores, é ter a grandeza de entender que no momento de guerra a nossa prioridade é derrotar o mal maior”, argumenta Alcides, dizendo que, “no fundo” o que está por trás “de todo esse barulho é impedir que eu seja o candidato ao Senado”.
O pré-candidato também reclamou do “discurso raso” de que “uma mulher está tendo que ceder um espaço para um homem”. “Olha o nível em que o debate chegou. Essa construção partidária começou muito antes de outras candidaturas serem sequer cogitadas”, lamentou, chamando a atenção para uma pesquisa que indicaria mais viabilidade de sua candidatura ao Senado do que a da candidata escolhida por Michelle.
“Michelle, reconheço que somente você sabe o que está passando e sofrendo, cuidando diariamente do nosso eterno presidente Jair Messias Bolsonaro. Mas a política exige uma certa maturidade para lavar roupa suja em casa e cumprir acordos publicamente. Em situações normais, eu jamais iria expor o que aconteceu em uma reunião fechada, mas a situação causada por você me obriga a expor”, diz Alcides no vídeo, acrescentando que ficou surpreso ao ouvir a ex-primeira-dama “dizer publicamente que não negocia valores e princípios”.
“No dia 14 de abril, em uma reunião fechada entre você, Altineu [Côrtes], André e Valdemar [Costa Neto, presidente nacional do PL] na sua sala, você disse que toparia fazer aliança com Ciro desde que fosse colocada a sua indicada ao Senado na chapa. Os valores são mesmo inegociáveis ou todo esse estardalhaço contra nós, e esse enorme prejuízo na campanha do Flávio Bolsonaro, foi apenas uma tentativa de criar um caos para impor uma vontade particular sua?”, questionou, sugerindo que, na verdade, é Michelle que está prorizando um projeto pessoal, e não ele.
Página virada?
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que acabou se tornando o grande alvo do vídeo de Michelle, que se disse humilhada por ele, afirmou na sexta-feira, 26, que o atrito público com a madrasta “já é página virada”. É muito difícil acreditar nisso.
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