Orlando Tosetto Júnior na Crusoé: O adorno dos cavalheiros
Você aí, cínico, achando que trabalha seis meses por ano pro Governo a troco de nada, pode ganhar uma gravata
O amigo decerto não é da mesma geração que eu, e portanto não deve ter recebido das mulheres de sua família (dos homens também, mas principalmente das mulheres) uma lição muito importante: jamais usar a sua gravata como guardanapo. Nem como lenço de bolso.
Talvez seja importante salientar: a gravata de que falo é a gravata de pano, o chamado “adorno de cavalheiros”.
Aquela que tem nó simples, duplo e Windsor. As demais gravatas que o Governo nos dá, essas que às vezes nos deixam de boca aberta, às vezes até sem ar, dessas nós trataremos outro dia, se noutro dia pudermos, se a mais um dia chegarmos.
Por ora, se o amigo nunca ouviu esse conselho, instrução ou bronca, fico feliz de ser eu a dá-lo: gravata não é guardanapo. Ainda não há geração masculina inteiramente livre das gravatas, e quando for sua vez de usar uma, você há de se lembrar, quando vier a tentação: opa, o cronista me avisou.
O caso é ainda mais sério se a gravata do amigo lhe tiver sido dada de presente por algum órgão do Governo. E piora se o presente tiver sido adquirido com fundos públicos, mediante regular licitação e com finalidades escancarada e ostentadoramente democráticas.
Aliás, agradeça aos céus o viver num tempo e num país em que praticamente qualquer coisa pode ser dita ou feita, vendida ou dada de brinde, desde que adequadamente qualificada como democrática.
Enfim, nessa gravata é que o amigo não poderá jamais limpar os lábios, nem com ela jamais enxugar o suor – honesto, laborioso – da sua honrada testa.
Na verdade, o certo mesmo seria o amigo dar a essa gravata governamental o maior destaque possível. Abotoe o paletó (calma, falo no sentido literal) por baixo da gravata, ponha umas luzinhas na lapela que a iluminem, e saia por aí com um megafone alardeando:
— Olhem esta gravata! Olhem, olhem esta gravata!
E eles a olharão, tanto os que sabem do que se trata essa gravata quanto os que não, e admirar-se-ão: é o símbolo do apreço e da distinta consideração que a Administração Pública, isto é, o Governo, na pessoa jurídica de alguma Corte, tem por você.
E afinal é sempre alguma coisa em troca dos seus impostos, é ou não é?
Você aí, cínico, achando que trabalha seis meses por ano pro Governo a troco de nada, e eis que, dependendo é claro de quem você for, do que você fizer e disser, e de quem você agradar, zás! Ganha uma gravata.
Se pá, até personalizada. Não com o seu nome (convenhamos: quem é você na fila do pão?), mas sim com o nome do órgão que te deu a gravata. Sei lá: IBGE, Embrafilme, Ministério da Pesca, TSE. Chique no úrtimo, como diriam os próceres republicanos do século 19.
E é assim: para lá se foram vários milhares dos seus reais em IPI, IPTU, IRRF, IOF, ICMS, IHLASCOU e tributos outros, e de lá veio um lindo adorno para o seu cavalheirismo. Ou um belo adereço para o seu funeral.
Porque o amigo vai pro caixão de gravata, fique sabendo; eu também vou, aliás. E vai ser essa a nossa última vez na condição de engravatados.
Em qualquer caso, é melhor ganhar as gravatas, seja da namorada, seja do Governo.
Porque se você tiver que comprá-las, pode…
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