O que faria um eleitor abandonar seu candidato?
Levantamento do Monitor do Debate Público mapeou, em seis perfis de eleitores, os fatores que motivariam desistência do voto
Um estudo com eleitores brasileiros, divididos em seis perfis ideológicos, identificou que a corrupção é o principal motivo de ruptura entre eleitor e candidato, embora o peso desse fator varie conforme o grupo político analisado. A coleta ocorreu por meio de seis grupos focais conduzidos pelo aplicativo WhatsApp.
A pesquisa foi realizada no dia 8 de junho pelo Monitor do Debate Público, projeto do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP), vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).
Metodologia e perfis avaliados
Os participantes foram distribuídos em segmentos definidos por escolha eleitoral em 2022, avaliação do governo atual e posição no espectro ideológico. Os grupos reúnem bolsonaristas convictos, bolsonaristas moderados, lulistas, lulodescontentes, indecisos progressistas e indecisos conservadores.
De acordo com o site The Conversation, a pesquisa substituiu, nesta edição, a antiga categoria de eleitores flutuantes por dois blocos de indecisos.
Os indecisos conservadores votaram em Jair Bolsonaro ou anularam o voto em 2022, posicionando-se à direita. Os indecisos progressistas escolheram Luiz Inácio Lula da Silva ou também se abstiveram, com posicionamento à esquerda.
Os organizadores ressalvam que os resultados não devem ser interpretados como representativos estatisticamente da população brasileira, já que se trata de metodologia qualitativa voltada à compreensão dos argumentos dos entrevistados, e não à mensuração de proporções.
Divergências entre os grupos
A pesquisa mostrou que bolsonaristas convictos tratam a rejeição ao Partido dos Trabalhadores (PT) como critério ideológico fixo, independente de fatos concretos.
Uma participante de 47 anos, administradora, baiana, declarou que “não votar no PT é uma questão de segurança nacional, de ver o quanto a criminalidade aumenta a cada dia, os impostos, taxas sobre taxas, além de uma corrupção velada que não cessa”.
Já entre bolsonaristas moderados, a exigência é por comprovação factual. Um pensionista de 72 anos, do Rio de Janeiro, afirmou que abandonaria o voto perante “um escândalo de corrupção que envolvesse desvio de verbas públicas ou rombo nos cofres públicos em benefício particular”.
Padrão semelhante aparece entre os lulodescontentes, que também cobram provas de má conduta, mas se diferenciam por aceitarem trocar de candidato caso surja opção mais capacitada.
Uma técnica administrativa de 52 anos, de Minas Gerais, afirmou que mudaria o voto “caso surgisse alguém mais preparado e comprometido com os problemas reais da população, sem ficar preso às disputas políticas de sempre”.
Pautas de minorias e religião
Entre os indecisos progressistas, o limite de tolerância está ligado a posições contrárias a direitos de minorias, sendo o único grupo em que o nome do ex-presidente Bolsonaro surge espontaneamente como referência negativa.
Uma empreendedora de 29 anos, fluminense, citou como motivo de rejeição um candidato “que desrespeite as mulheres, que esteja envolvido em escândalos, que seja a favor do porte de armas, que seja homofóbico e vise beneficiar somente os grandes empresários”.
Os indecisos conservadores, por sua vez, somam critérios variados — coerência, alianças políticas e plano de governo — em vez de um fator único.
Uma maquiadora de 30 anos, do Rio de Janeiro, mencionou que cancela o voto perante “falas problemáticas, falta de um plano de governo e envolvimento em escândalo”.
Já uma estudante de 24 anos, do Rio Grande do Norte, apontou rejeição a candidatos religiosos que usam a fé como instrumento de promoção pessoal, defendendo a separação entre Igreja e Estado.
No grupo lulista, a avaliação considera a trajetória completa do candidato, e não episódios isolados. Um psicólogo de 54 anos, cearense, declarou que mudaria de posição apenas perante “uma comprovação inequívoca de corrupção, autoritarismo ou abandono das pautas que motivaram meu apoio, como a defesa da democracia, dos direitos sociais e da redução das desigualdades”.
Segundo o Monitor do Debate Público, o desempenho de futuras denúncias de corrupção ao longo da campanha de 2026 dependerá menos do conteúdo da acusação em si, e mais da forma como ela se conecta às crenças prévias de cada segmento eleitoral.
A mentira, sobretudo associada à propagação de notícias falsas, também foi citada nos seis grupos, ainda que sem consenso sobre o que configura limite inegociável para o voto.
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