O explorador que cruzou a Antártida sozinho por 54 dias arrastando um trenó de quase 180 kg pelo gelo extremo
A jornada de Colin O’Brady percorreu cerca de 1.500 quilômetros e também abriu uma discussão sobre o que significa atravessar o continente sem apoio
Em novembro de 2018, o americano Colin O’Brady iniciou uma jornada que o obrigaria a depender exclusivamente do que conseguia transportar. Durante a travessia da Antártida, ele percorreu cerca de 1.500 quilômetros puxando um trenó carregado de comida e equipamentos, enfrentando frio extremo, altitude e semanas praticamente sozinho.
Como Colin O’Brady começou a travessia da Antártida carregando tudo de que precisaria?
O’Brady partiu em 3 de novembro de 2018 da região conhecida como Messner Start e seguiu em direção ao Polo Sul antes de continuar até a geleira Leverett. O trenó inicial pesava aproximadamente 180 quilos, não 170, porque precisava carregar equipamentos, combustível e praticamente toda a alimentação prevista para a expedição.
Ele chegou ao Polo Sul em 12 de dezembro e terminou a jornada em 26 de dezembro. O Guinness registra 1.499 quilômetros percorridos em 53 dias, enquanto a divulgação da expedição e diversas reportagens descrevem a aventura como uma jornada de 54 dias, diferença ligada à forma de contar os dias de calendário.
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Por que a alimentação era tão importante durante a travessia da Antártida?
O desafio logístico era cruel: quanto mais comida O’Brady levasse, maior seria o peso que precisaria arrastar. Ao mesmo tempo, jornadas diárias no frio exigiam enorme quantidade de energia. Estimativas da expedição apontavam gasto próximo de 10 mil calorias por dia, enquanto sua alimentação fornecia aproximadamente 7 mil a 8 mil.
Entre os elementos fundamentais estavam:
- Barras energéticas de alta densidade calórica
- Refeições desidratadas
- Equipamentos de acampamento
- Combustível para derreter neve
- Roupas para temperaturas extremamente baixas
Neste vídeo, o próprio Colin O’Brady relata sua jornada de aproximadamente mil milhas pela Antártida e mostra parte da rotina de puxar o trenó durante semanas no gelo.
O peso diminuía conforme os alimentos eram consumidos, mas o corpo também sofria com o déficit energético acumulado. Reportagens da época registraram perda significativa de peso ao longo da expedição, mesmo com uma alimentação planejada especificamente para fornecer muitas calorias em pouco volume.
Como era passar semanas sozinho no interior do continente?
Além da resistência física, O’Brady precisava manter uma rotina repetitiva em um ambiente quase sem referências visuais. Ele montava acampamento, preparava comida, dormia e voltava aos esquis, repetindo o processo enquanto atravessava o enorme planalto coberto de gelo.
O isolamento, porém, não significava ausência absoluta de comunicação com o mundo exterior. O explorador mantinha contato por dispositivos de comunicação e recebia apoio remoto de sua equipe. Portanto, “sozinho” descreve o fato de não haver outra pessoa viajando ao lado dele, e não um isolamento completo das comunicações.
Por que o recorde de Colin O’Brady acabou provocando controvérsia?
Quando terminou, sua expedição foi amplamente anunciada como a primeira travessia solo, sem apoio e sem assistência humana da Antártida. A Antarctic Logistics & Expeditions, responsável pela logística polar da região, classificou O’Brady como o primeiro a completar aquele objetivo específico sem reabastecimento e sem auxílio de velas ou pipas.
Entretanto, a classificação passou a ser contestada. Parte do percurso utilizou a South Pole Overland Traverse, uma rota marcada e preparada. O Guinness World Records atualmente explica que, segundo o Polar Expeditions Classification Scheme, o uso dessa rota faz a viagem ser considerada “supported”. Exploradores também apontam que Børge Ousland já havia atravessado a Antártida sozinho em 1996-97, embora utilizando uma pipa para aproveitar o vento.
O que aconteceu nas últimas horas da travessia da Antártida?
Perto do fim, O’Brady decidiu transformar a etapa final em uma arrancada extraordinariamente longa. Ele percorreu aproximadamente 125 quilômetros em cerca de 32 horas quase continuamente, fazendo apenas uma pequena pausa para comer e preparar água antes de continuar.
A chegada ocorreu na geleira Leverett, na borda da plataforma de gelo Ross. Dois dias depois, o britânico Louis Rudd completou praticamente a mesma rota, tornando-se o segundo participante daquela temporada a realizar o percurso solo e sem reabastecimento.

O feito de Colin O’Brady continua sendo importante apesar da discussão sobre o recorde?
Sim, desde que seja descrito com precisão. O Guinness reconhece O’Brady como o primeiro homem a esquiar sozinho através da Antártida naquela categoria de propulsão exclusivamente humana, mas não o considera o primeiro homem a atravessar o continente sozinho nem classifica atualmente sua rota como totalmente sem apoio.
Isso não reduz a dimensão física da jornada. Ele percorreu aproximadamente 1.500 quilômetros, passou quase dois meses no gelo e começou carregando perto de 180 quilos. A história permanece excepcional justamente quando os números reais substituem a necessidade de transformar uma expedição extraordinária em um recorde mais absoluto do que as regras permitem.
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