O Brasil aposentou o Zé Gotinha?
Desinformação na atenção primária geram retrocesso na proteção contra doenças preveníveis e país registra aumento de crianças não vacinadas
O Brasil registrou um aumento expressivo no número de crianças não imunizadas, com o total de 103 mil em 2023 saltando para 229 mil em 2024. Esse crescimento, que representa 126 mil crianças adicionais sem vacinação, coloca o país na 17ª posição global entre as nações com maior número de crianças desprotegidas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontam a desinformação, a ascensão de movimentos antivacina e a insuficiência de investimentos no setor de saúde como razões para a baixa adesão à imunização. O cenário reflete uma preocupante vulnerabilidade nacional a doenças que já foram controladas.
Causas do declínio vacinal
O avanço da desinformação é um dos fatores que contribuem para o incremento de crianças sem nenhuma dose de vacinas de rotina, as chamadas “zero-dose”.
O infectologista Fernando Bellissimo Rodrigues, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, afirma que “tem acontecido uma epidemia de informações falsas divulgadas propositalmente por pessoas mal-intencionadas nas redes sociais. E o objetivo desses indivíduos não é especificamente reduzir a cobertura vacinal, mas fazer lucro com a desinformação”.
Além disso, a população desenvolveu uma percepção equivocada de que doenças infecciosas foram erradicadas. A pediatra Jorgete Maria e Silva, do Hospital das Clínicas da FMRP da USP, explica que, entre 2012 e 2016, a diminuição dos casos de sarampo e poliomielite gerou a falsa impressão de controle.
Essa condição, somada à expansão de grupos antivacinas, contribuiu para a redução da adesão à imunização. A nível global, 14,3 milhões de crianças em 2024 não receberam a primeira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche.
Consequências e estratégias de recuperação
A baixa cobertura vacinal tem impacto na saúde pública. A não imunização propicia as condições para o reaparecimento de enfermidades passíveis de prevenção: “O maior impacto é trazer doenças imunopreveníveis, como surtos de sarampo, coqueluche e poliomielite”, alerta Jorgete Maria e Silva.
A especialista também aponta a insuficiência de profissionais na área da saúde como um problema. Ela critica a alta rotatividade e a dificuldade em atender à demanda, resultado do sucateamento da saúde pública.
A reafirmação de políticas de atenção primária à saúde, com a ampliação de agentes comunitários, é um caminho. Esses profissionais visitariam as residências para verificar cartões de vacinação e estimular a imunização.
O Sistema Único de Saúde (SUS) e o Programa Nacional de Imunização (PNI) têm capacidade para vacinar todas as crianças e jovens. O desafio reside em levar esses indivíduos às unidades de saúde para receberem as doses. A introdução de educação efetiva nos âmbitos acadêmico e populacional, especialmente para os mais vulneráveis, é indispensável.
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