Maristela Basso na Crusoé: A política depois da verdade
Quando a mentira deixa de ser exceção moral e passa a funcionar como tecnologia de mobilização emocional
Por que a política sempre teve uma relação ambígua com a verdade e instalou-se no Brasil uma verdadeira “paixão pela mentira”?
Desde a Antiguidade, existe a percepção de que o poder não opera apenas pela força, mas também pela construção de narrativas.
Governar é, em parte, organizar percepções coletivas: criar esperança, mobilizar medo, produzir pertencimento, definir inimigos e oferecer sentido.
Contudo, existe algo de profundamente novo — e perigoso — acontecendo na política contemporânea.
No passado, o político tradicional mentia para esconder um fato.
O político contemporâneo muitas vezes mente para produzir uma realidade.
Isso é mais profundo.
Porque a mentira clássica ainda reconhecia implicitamente a existência da verdade. Havia algo a esconder.
Agora, em muitos casos, o objetivo não é convencer racionalmente. É gerar confusão. É borrar a realidade.
Os políticos sempre mentiram. Prometeram o que não cumpririam, esconderam informações, manipularam números, distorceram fatos. Nada disso é exatamente novidade.
Mas talvez a mentira política tenha mudado de natureza.
Durante muito tempo, mentia-se para esconder a realidade. Hoje, muitas vezes, mente-se para destruir a própria ideia de realidade comum — o que de fato é real e aconteceu.
E essa diferença é gigantesca.
Certos líderes perceberam que, numa sociedade emocionalmente fragmentada e saturada de informação, talvez não seja necessário convencer as pessoas de uma verdade.
Basta produzir confusão suficiente para que ninguém mais consiga distinguir claramente entre fato – interpretação e mentira.
A confusão deixa então de ser um efeito colateral da política. Passa a ser método de poder.
Esse talvez seja um dos maiores riscos democráticos do nosso tempo.
Porque democracias não sobrevivem apenas de eleições, tribunais ou constituições. Elas dependem da existência de um mundo minimamente compartilhado e real.
Uma sociedade precisa acreditar que certos fatos ainda podem ser reconhecidos coletivamente: eleições aconteceram…
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