Livro inacabado de Dom Phillips sobre a Amazônia é concluído por amigos
Assassinado em 2022, jornalista britânico dedicou anos à pesquisa e escrita de um livro focado em soluções para salvar a Floresta Amazônica
O jornalista britânico Dom Phillips dedicou anos à pesquisa e escrita de um livro focado em soluções para salvar a Floresta Amazônica. Tragicamente, ele e o indigenista Bruno Araújo Pereira foram assassinados em 5 de junho de 2022, no Vale do Javari, Amazonas, deixando a obra, intitulada Como salvar a Amazônia, inacabada.
Quase três anos após o crime que chocou o mundo, um esforço coletivo de amigos e colegas jornalistas garantiu que o trabalho de Phillips fosse concluído e publicado.
Lançado recentemente no Brasil e na Inglaterra, com chegada prevista aos Estados Unidos em 10 de junho, o livro se tornou, segundo a ativista Alessandra Sampaio, viúva de Phillips, uma obra de dimensão ainda maior devido à repercussão do caso, que jogou luz sobre os imensos desafios enfrentados pela floresta e seus defensores.
Um projeto coletivo de solidariedade
Dom Phillips havia escrito os três primeiros capítulos e meio, além de rascunhos e planos variados para os seis capítulos restantes, quando foi morto. A iniciativa de concluir o livro partiu espontaneamente de diversas pessoas próximas, movidas por um sentimento de indignação e solidariedade.
Segundo Jonathan Watts, editor global de meio ambiente do The Guardian e um dos coordenadores do projeto, o livro é uma homenagem a Phillips e a Pereira, e fortalece seu legado. O projeto foi coordenado por Watts, a agente literária de Phillips, Rebecca Carter, e os jornalistas David Davies, Tom Hennigan e Andrew Fishman. Cerca de 20 pessoas, entre jornalistas e especialistas, contribuíram na finalização e edição.
O maior desafio foi manter a fidelidade às intenções de Phillips, que nem sempre estavam totalmente claras, especialmente nos capítulos menos desenvolvidos. A equipe teve acesso às anotações, gravações e planos deixados por ele. Os colaboradores, escolhidos principalmente por seu profundo conhecimento da Amazônia e dos temas a serem abordados, foram orientados a “seguir as pistas” de Phillips, dialogar com seu material e suas memórias para manter sua presença na obra.
A obra publicada inclui o material original de Phillips, seis capítulos escritos em coautoria e um prefácio e posfácio que contextualizam a perda do autor. O prefácio detalha o crime e os eventos políticos recentes, enquanto o posfácio é assinado pelo líder indígena Beto Marubo e pela jornalista Helena Palmquist.
Os problemas e as soluções da floresta
O livro, que Dom Phillips via como uma busca por formas de “interromper a destruição e remediá-la”, trata a floresta como um ativo, não um obstáculo ao progresso. Apesar do título ambicioso, Phillips o concebeu também como uma pergunta, enfatizando a importância de ouvir aqueles que vivem na Amazônia.
A obra explora a complexidade da “salvação” da Amazônia, retratada não como uma solução única, mas como um conjunto de políticas públicas multifacetadas. O livro critica a retórica do governo Bolsonaro, que, segundo Phillips, encorajou atividades ilegais como garimpo e grilagem, pois muitos acreditavam que seriam legalizadas.
Uma das teses centrais é o protagonismo dos povos indígenas, cujas terras são as áreas mais preservadas da Amazônia. Seu modo de vida e iniciativas sustentáveis são apresentados como inspiração e parte essencial da solução.
O jornalista Tom Phillips (sim, um quase homônimo), correspondente do The Guardian para a América Latina, e coautor de um capítulo sobre defensores indígenas e a invasão na terra Yanomami, destacou que as equipes de monitoramento indígenas são fundamentais para responder à pergunta central do livro.
A obra também aborda temas como a especulação fundiária em Altamira e as dinâmicas de desenvolvimento perverso em Novo Progresso, mas também destaca iniciativas criativas e embrionárias de desenvolvimento sustentável.
Embora incompleto, o material deixado por Phillips permitiu que o livro explorasse temas diversos, incluindo finanças, relações internacionais, biofarmácia e, no capítulo final, educação ambiental. A conclusão do livro é vista como um ato de amor, rebeldia contra a violência que tenta silenciar o jornalismo e apoio àqueles que defendem a Amazônia.
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