Josias Teófilo na Crusoé: A ópera feita por quem ama ópera
É possível renovar a arte sem submetê-la à obsessão contemporânea por desconstruir a obra original
Depois do Festival de Veneza, tive a oportunidade de assistir a O Elixir do Amor, de Gaetano Donizetti, no Teatro alla Scala, em Milão, a casa de ópera mais tradicional do mundo.
O Scala é parte fundamental da história da música. Foi naquele palco que estrearam óperas de Verdi, Bellini, Donizetti e Puccini e onde também se consagrou o compositor brasileiro Carlos Gomes, que ali apresentou O Guarani em 1870.
A presença de Carlos Gomes na história musical de Milão não é apenas uma curiosidade para brasileiros. Existe até uma rua na cidade em homenagem ao compositor: a Via Carlo Gomes — com seu primeiro nome italianizado.
A montagem de O Elixir do Amor a que assisti foi dirigida por Maria Mauti, cineasta que fazia sua estreia no Scala, e realizada em parceria com a Accademia Teatro alla Scala, a escola ligada ao teatro responsável pela formação de jovens cantores, músicos, bailarinos, cenógrafos, figurinistas e técnicos destinados ao exigente mundo da ópera e do espetáculo. A regência ficou a cargo do jovem maestro Marco Alibrando.
O Elixir do Amor é uma das grandes óperas cômicas do repertório italiano, e sua história se sustenta sobre um conflito simples e universal, de duas pessoas que se amam, mas não conseguem expressar o que sentem.
Nemorino é um camponês ingênuo e apaixonado por Adina, jovem bela, rica e muito mais segura de si. Adina também sente algo por ele, mas resiste a entregar-se e diverte-se com a devoção do rapaz.
Quando o sargento Belcore aparece e a pede em casamento, ela aceita, em grande parte para provocar Nemorino e testar até onde vai seu amor.
Desesperado, Nemorino recorre ao charlatão Dulcamara, que lhe vende uma garrafa de vinho comum como se fosse o milagroso elixir de amor da lenda de Tristão e Isolda. Nemorino bebe a poção, convencido de que, dentro de algumas horas, todas as mulheres estarão apaixonadas por ele.
A graça da ópera nasce justamente do encontro entre ilusão e realidade. Acreditando no poder do elixir, Nemorino passa a comportar-se com uma confiança que nunca tivera. Ao mesmo tempo, recebe inesperadamente uma herança — fato que ainda desconhece.
As mulheres da aldeia ficam sabendo de sua nova fortuna e começam a cercá-lo. Para Nemorino, só pode haver uma explicação: o elixir realmente funciona.
É uma trama construída sobre equívocos, vaidade e ingenuidade. Donizetti consegue transformar essa comédia numa…
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