Josias Teófilo na Crusoé: A morte de um poeta
Se existia uma constante no pensamento de Fernando Monteiro era o seu pessimismo – ou seria um realismo?
Acabei de saber do falecimento do poeta Fernando Monteiro. Não existe nada mais triste do que a morte de um poeta.
Fernando foi também cineasta, escritor, crítico de arte – tudo isso, para ele, eram formas da poética, ou poiesis.
Conheci Fernando na exibição de um filme do cineasta italiano Valério Zurlini no Cine Teatro Apolo, no Bairro do Recife, em que ele comentou sobre a obra do cineasta após a sessão.
Fui perguntar se ele conheceu meu avô, o cineasta Pedro Teófilo Batista. Ele disse que conheceu, que era um senhor educado e discreto.
Depois disso, o encontrei no shopping, e ele me convidou para tomar um café.
De repente me vi conversando com ele num lugar completamente aculturado – o café ou praça de alimentação de um shopping, um lugar que muda completamente a cada cinco anos.
Conversamos sobre a civilização suméria, sobre os faraós egípcios (nunca vou esquecer de ouvir Fernando dizer que um faraó do Egito poderia ser arquélogo do antecessor, já que a linhagem durou milênios, entre várias dinastias), sobre o pensamento de Gilberto Freyre (que ele conheceu pessoalmente), sobre a música de Villa-Lobos e Igor Stravinski, sobre o cinema de Michelangelo Antonioni ou Pier Paolo Pasolini etc.
Se bem o lugar talvez nem fosse tão aculturado assim: uma vez Fernando contou-me que viu Gilberto Freyre na agência do Banco do Brasil do Shopping Recife. Todas as vezes seguintes que passei por lá lembrei disso.
Fernando morava próximo ao shopping e ia sempre lá enviar uma carta ou livro pelo correio, ou ir à livraria.
Ele não tinha motivo algum para dar atenção a mim, um simples estudante de jornalismo.
Mas acontecia de encontrar-nos lá no shopping e passávamos horas conversando. Uma vez ele sugeriu um filme chamado O mensageiro do Diabo, o único filme dirigido pelo ator Charles Laughton.
Fiquei tão impressionado que tinha crises de choro quando lembrava do enredo.
Comentei sobre isso com Fernando e ele respondeu por email: “É isso o que eu chamo o poder de uma verdadeira obra de arte”.
Fernando era muito pessimista em relação o estado da cultura.
Detalhe que naquela época ainda estavam vivos Ariano Suassuna, Cussy de Almeida (o criador da Orquestra Armorial), Clovis Pereira, os poetas Cezar Leal e Lucila Nogueira.
Mas ele dizia que quando entrou para o meio cultural sentia já um ambiente de fim de festa – como se tudo de importante já tivesse sido feito.
Se existia uma constante no pensamento de Fernando era o seu pessimismo – ou seria um realismo?
Citava sempre o poema de Alberto da Cunha Melo, que dizia: “Poema nenhum, nunca mais / será um acontecimento: / escrevemos cada vez mais, para um mundo cada vez menos”.
E também os versos de William Butler Yeats: “Falta convicção aos melhores, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”.
Fernando chegou a conviver com grandes da cultura – como o cineasta Alberto Cavalcanti, de quem foi amigo.
Ele sempre se referia a Cavalcanti como “o mestre de três cinematografias – a francesa, a inglesa e a brasileira”.
Ele tinha cartas de Cavalcanti lamentando o tratamento que teve no Brasil – o cineasta a quem Alfred Hitchcock agradeceu era ignorado e teve sua obra desprezada no seu país.
O escritor fez um dos livros mais radicais da literatura brasileira, Aspades ets e etc, sobre um cineasta português fictício, Vasco Aspades do Carmo.
Na obra – que já foi considerada o último grande romance brasileiro (e não duvido que seja) – Fernando leva até as últimas consequências o método de fluxo de consciência, criado por Édouard Dujardin em 1888, e tornado célebre pelo uso de James Joyce no livro Ulisses, que consiste em descrever o complexo processo do pensamento de um personagem, entremeado com impressões não lineares, com rupturas na sintaxe e pontuação.
Uma das coisas mais impressionante deste livro é a descrição dos filmes do cineasta português – coisa que só poderia ter sido escrita por ele, também cineasta. Fernando fez filmes em 35mm nos anos 1970 e 1980, mas largou o cinema pela literatura.
Aspades ets e etc foi lançado primeiro em Portugal. Só quando chegou às mãos do editor da Bravo!, Wagner Carelli, que ficou muito impressionado com o que leu, pensando ser o livro de um autor português.
Quando ele viu que era brasileiro indicou sua obra para ser editada pela Record e realizou algumas importantes entrevistas com Fernando para a Bravo!, da qual ele virou logo depois colunista – compondo com Olavo de Carvalho e Bruno Tolentino o time da melhor revista de cultura que esse país já teve.
O livro foi escrito numa noite a partir de uma ideia fulminante, Fernando sentou-se e escreveu o livro inteiro no computador mas não sabia ainda usá-lo bem, e acabou apagando tudo. Teve que reescrever, mas o livro permanece como uma criação febril, radical, sem concessões.
Fernando chegou a escrever outro livro assim, de uma só vez.
Foi no fatídico de dia 2 de setembro de 2018, durante o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro.
O poeta tinha uma profunda relação com o museu, especialmente pelos artefatos egípcios, que inspiraram seu livro A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro. Na madrugada do incêndio, sem conseguir dormir, escreveu o poema longo O Museu da Noite.
Um ano depois, um curto-circuito num ventilador provocou um incêndio em sua casa, no bairro de Boa Viagem, no Recife, e queimou 80% da sua biblioteca – incluindo quadros de importantes pintores, antiguidades romanas e egípcias.
Fernando vivia no mundo da cultura…
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