Jornalista alvo de Moraes e Dino dá sua versão
Luís Pablo Conceição Almeida contou ao Papo Antagonista detalhes da investigação sigilosa sobre o alegado monitoramento do ministro do STF
O jornalista Luís Pablo Conceição Almeida (foto), cuja reportagem sobre o uso de veículo oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) por Flávio Dino levou à abertura de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), deu sua versão dos fatos no Papo Antagonista.
O próprio Luís Pablo já tinha sido alvo de busca e apreensão da Polícia Federal em março. Foi a partir da apreensão de seu computador, como ele conta na entrevista, que os investigadores chegaram à fonte que lhe passou as imagens de Dino, quebrando o constitucional direito ao sigilo.
Segundo a Associação Nacional de Jornais (ANJ), “a busca e apreensão em razão de informação jornalística abre um precedente muito perigoso”.
“É uma séria ameaça à liberdade de imprensa, porque a Constituição, em seu artigo 5, inciso XIV, é taxativa em proteger o sigilo da fonte quando necessário para o exercício profissional”, completou.
“Me incomodou mais que quererem saber quem foi minha fonte”
Segundo Luís Pablo, a PF não se manifesta sobre seu caso desde março, quando ocorreu a busca e a apreensão.
“Meu advogado sempre peticionou, perguntando por essa demora, e nunca, nenhuma resposta da Polícia Federal, nem da Justiça. Quando foi hoje [terça-feira, 11], a gente foi surpreendido com essa operação da Polícia Federal, em que eu não fui alvo, mas o ex-secretário, exdeputado Raimundo Cutrim foi, e também um advogado chamado Diogo Lima, um advogado que é meu amigo pessoal, infelizmente foi alvo dessa operação de hoje de forma injusta”, disse o jornalista.
Luís Pablo alega ter consultado o advogado para consultas sobre a melhor forma de publicar a reportagem sobre Dino, “para eu não escrever nada que causasse processo para mim ou transtorno”.
Segundo o jornalista, a polícia chegou ao nome de Diogo Diniz Lima e de Cutrim por meio das conversas de seu WhatsApp Web, acessadas em seu MacBook, apreendido em março.
100 mil reais
O ministro Alexandre de Moraes enxergou em tudo isso um possível esquema de monitoramento, que teria sido confirmado pelo repasse de 100 mil reais para Luís Pablo. Segundo o jornalista, contudo, o dinheiro foi um empréstimo de Diogo Lima, que já teria, inclusivo, sido pago.
“Eu havia ligado para ele para contar uma situação particular minha, que eu fui jogar a bola e, infelizmente, minha costela quebrou. E eu tava querendo comprar um terreno e falei para ele que eu não estava conseguindo levantar o dinheiro desse terreno. Ele, prontamente, [disse] ‘Pablo, eu te empresto o dinheiro, não tem problema. Depois tu me paga’. Ele emprestou o dinheiro para mim, tem lá na conversa, ele enviando o pagamento diretamente para o proprietário da área que eu havia negociado. E, aí, depois de 5 meses, eu devolvi o dinheiro para ele. [De] Tudo isso tem prova, a Polícia Federal simplesmente pegou, fez busca e apreensão com esse meu amigo que me orientou de forma jurídica, sem nenhum interesse em torno disso, e diz que ele me pagou para falar mal do ministro, algo extremamente absurdo”, contou.
O jornalista disse que “isso aí foi algo que me incomodou mais do que Alexandre de Moraes, com Flávio, de querer saber quem foi minha fonte de informação, porque foi uma injustiça que cometeu com uma pessoa que, quem mora aqui no estado [Maranhão], sabe: tem uma conduta ilibada”.
“Jamais houve uso irregular”
Luís Pablo destacou ainda que só se ouve falar sobre a alegada trama para monitoramento de Dino, e não sobre o uso do veículo oficial pelo ministro do STF.
Dino divulgou uma nota na terça-feira para dizer que “jamais houve uso irregular de veículo oficial” e que “o trabalho dos investigadores também apontou o acesso ilegal, por funcionário público, a informações sigilosas de segurança, que foram utilizadas em um monitoramento clandestino e ilegal”.
Luís Pablo terminou a entrevista dizendo temer pela sua relação com as fontes de informação.
“Eu não tenho menor dúvida [de] que isso vai impactar. Qual é o advogado que vai querer conversar comigo? (…) Tenho certeza que qualquer advogado vai ficar com medo de falar comigo, não só advogado, como qualquer fonte de formação, porque o meu trabalho aqui sempre foi focado em jornalismo investigativo, em denunciar, em cobrar, em pedir direito de resposta, como eu procurei o ministro [Dino] através do seu e-mail do STF, e não me respondeu. Ele respondeu foi fazendo isso aí que está acontecendo comigo, algo absurdo”, reclamou.
Assista à íntegra da entrevista:
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Comentários (1)
Mauro Seraphim
12.08.2026 10:05Em tese, temos dois problemas sérios nesta questão. Um é a questão que envolve a quebra do sigilo da fonte. O outro é a quebra do sigilo da relação entre o cliente e seu advogado.