Jerônimo Teixeira na Crusoé: Ninguém sofre como os napolitanos

01.11.2026

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Jerônimo Teixeira na Crusoé: Ninguém sofre como os napolitanos
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Redação O Antagonista
5 minutos de leitura 02.03.2025 09:35 comentários
Brasil

Jerônimo Teixeira na Crusoé: Ninguém sofre como os napolitanos

A dura realidade de Nápoles no fim Segunda Guerra demonstra que a dor, realidade universal, atravessa qualquer barreira étnica ou cultural

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Jerônimo Teixeira na Crusoé: Ninguém sofre como os napolitanos
Cena de Paisà, de Roberto Rossellini. Reprodução/redes sociais

Lá nos primeiros meses da guerra da Ucrânia, quando mulheres e crianças buscavam asilo na Polônia, vi a turma pró-Rússia desdenhar desses refugiados.

Eles viajavam até a fronteira de trem ou carro. Eram brancos e loiros. Tinham até casacos!

Refugiados de verdade eram os curdos, os sudaneses, os sírios que fugiam para a Europa a bordo de barquinhos precários.

Em contexto bem diferente, a recepção de Ainda Estou Aqui – a premiação do Oscar é neste domingo! – foi parcialmente pautada por essa categorização do sofrimento.

De algum modo, a dor de Eunice Paiva, a mulher que teve o marido roubado pela ditadura, mereceria menos reconhecimento porque ela é branca.

Sim, certos grupos – judeus e negros, por exemplo – foram especialmente perseguidos e excluídos ao longo da história. Podemos dizer que eles sofreram mais.

Nem por isso cabe estabelecer uma hierarquia da dor. O sofrimento é universal e irredutível.

Hoje a coluna é dedicada ao sofrimento de Nápoles nos anos finais da Segunda Guerra Mundial. Um livro semi-ficcional e um filme de guerra serão meus guias.

Sofrimento à flor da pele

“Nenhum povo sobre a terra jamais sofreu tanto quanto o povo napolitano”, disse o capitão Curzio Malaparte ao Coronel Jack Hamilton. Ao redor dos dois militares, Nápoles era uma paisagem de escombros e miséria naqueles dias de 1943.

O coronel Hamilton fica surpreso com essa afirmação. Nos diálogos de A pele, livro de memórias (ostensivamente distorcidas por invenções do autor) publicado em 1949, Malaparte aparece sempre como um provocador, desconcertando seus interlocutores com suas teses abstrusas e frases cifradas.

Em uma obra anterior, Kaputt, o mesmo autor testemunha um pogrom na Romênia e faz um incursão pelo gueto de Varsóvia. Ele acreditava mesmo que os napolitanos sofreram mais do que os judeus?

Não, ele não faz essa comparação. Ele diz que os napolitanos sofreram mais do que qualquer outro povo – mas isso é uma hipérbole, figura de linguagem que escapa à lógica convencional.

Com esses termos exagerados, Malaparte está dizendo que a dor napolitana é grande demais para ser exagerada.

Cidade prostituída

Quando entraram em Nápoles, em 1º de outubro de 1943, os aliados foram recebidos pela população não como invasores, mas como uma força de liberação.

Os civis da cidade, homens, mulheres e crianças, haviam resistido bravamente à ocupação alemã, conforme narra o próprio Malaparte.

A guerrilha contra os nazistas fora, diz o escritor, “uma luta nobre, digna, leal”. As pessoas “lutavam para não morrer”.

Depois que o inimigo foi expulso pelos aliados, os habitantes de uma Nápoles destroçada pelos bombardeios se viram obrigados a “lutar para viver”. E esta é uma luta indigna.

A pele retrata Nápoles como uma cidade destruída e prostituída. As calçadas estão tomadas pela mendicância, quase todas as mulheres vendem o corpo e até os serviços sexuais de crianças são abertamente oferecidos nas ruas.

Designado como oficial de ligação entre o Exército italiano mambembe que sobrara em Nápoles e o comando aliado, Malaparte acompanhava os oficiais americanos em incursões pelos porões mais sórdidos da cidade.

O escritor fala de seus companheiros com um misto de admiração e rancor. Limpos, inocentes, cristãos, os americanos seriam incapazes de entender as tribulações que afligiam os napolitanos.

Os soldados negros formam um grupo à parte, talvez tão inocentes quanto os brancos – mas aparentemente mais ingênuos.

Se Malaparte não mente, os negros eram os soldados mais disputados pelos rapazotes que andavam pela rua buscando americanos para achacar.

Mais generosos que os brancos, traziam açúcar, cigarros, carne enlatada, roupas e outros presentes para as famílias que os abrigassem.

Ladrões de botas

Lançado em 1946, três anos antes de A Pele, o filme Paisà apresenta um soldado negro roubado por um moleque italiano.

Malaparte narra casos assim com humor ferino e um naturalismo que roça o grotesco. Roberto Rossellini, diretor de Paisà, prefere um registro realista, mas delicado.

O filme é dividido em seis episódios independentes, cada um deles em um local diferente no caminho da liberação da Itália. É no segundo episódio, ambientado em Nápoles, que aparecem o soldado negro e o menino malandro.

O soldado não fala italiano, o garoto não fala inglês. Não sabem nem o nome um do outro (o menino chama o soldado de Joe, mas todo o soldado americano era tratado assim pelos italianos).

O moleque conduz o soldado, que está trocando as pernas de tão bêbado, pelas quebradas de Nápoles. Lá pelas tantas, a dupla se senta sobre os destroços de um prédio bombardeado.

O soldado entra em uma digressão febril, fantasiando que será recebido em triunfo quando retornar aos Estados Unidos. Em seguida, se torna melancólico: “Voltar para casa? Não quero voltar para casa. Minha casa é um barraco miserável”.

“Se você dormir, vou roubar suas botas”, avisa o menino. Joe pega no sono.

Paisagens da miséria

Em outro momento, já sóbrio…

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