Gustavo Nogy na Crusoé: Perguntar não ofende
Você não tem ou não tinha, até que o doutor declarasse o óbito, quaisquer opiniões a respeito do morto, do que ele defendia, do que ele não defendia
Todo dia é a mesma coisa. Todo dia, daqui por diante, será a mesma coisa.
Morre alguém.
Não, assim não.
Precisamos de mais suspense na trama: morre alguém assassinado por alguém. Morrer por morrer não tem graça.
As redes e mídias sociais, aquelas nas quais você se enfiou porque quis – você podia ser padeiro, marceneiro, pedreiro, mas não: você quis fazer das suas declarações o seu ganha-pão; você quis fazer amigos e influenciar pessoas; você quis ser polemista –, as redes e mídias sociais, como eu dizia, exigem de você uma opinião sobre o morto.
Não é o que você faz, o que nos prometeu fazer? Sua opinião, por favor.
Você não tem ou não tinha, até que o doutor declarasse o óbito, quaisquer opiniões a respeito do morto, do que ele defendia, do que ele não defendia.
Mas os mortos precisam de quem tenha opiniões sobre eles, coitados. Já não basta terem sido mortos, queremos agora que sejam mortos sobre os quais não se tem opinião? Mortos-apenas-mortos?
Você o odiava? Você o amava?
Você ainda não sabe.
Você faz uma pesquisa. Assiste a vídeos. Lê textos. A liçãozinha de casa, como dizem os jornalistas.
Era amigo de quem, era inimigo de quem.
Muita gente merece seu ódio. Muita gente merece seu amor. Mas não dá tempo de odiar ou de amar todo mundo que merece ser odiado ou amado. A arte é longa, a vida é breve, o dinheiro é curto, a publi não foi entregue e o algoritmo é metafísico.
Vamos! Rápido! Todo mundo já está monetizando os obituários!
Feita a pesquisa, você se lembra do quanto o detestava agora que ele morreu. Quando ele…
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