Governo Lula teme instabilidade após renúncia de Peña no Paraguai
Planalto monitora crise provocada pelo colapso do Ueno Bank e vê enfraquecimento de aliado de Trump na América Latina
A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, nesta quinta-feira, 5, acendeu um alerta no governo brasileiro sobre os possíveis efeitos da crise política no país vizinho. Embora integrantes do governo do presidente Lula (PT) avaliem que a saída de Peña representa uma derrota para a direita latino-americana e para os aliados de Donald Trump na região, a principal preocupação de Brasília é evitar que a turbulência provoque instabilidade social e novos conflitos.
O episódio é acompanhado de perto pelo Palácio do Planalto, que monitora a situação por meio da Embaixada do Brasil em Assunção. A avaliação é que a crise precisa ser contornada rapidamente para evitar uma onda de manifestações e preservar a estabilidade política do Paraguai, parceiro estratégico do Brasil.
Peña anunciou a renúncia após perder o apoio de integrantes de seu próprio partido, o Colorado, e enfrentar a abertura de um processo de impeachment no Congresso paraguaio. A crise foi desencadeada pelo colapso do Ueno Bank, instituição financeira que deixou milhões de clientes sem acesso às próprias contas.
O vice-presidente Pedro Alliana é o sucessor constitucional de Peña. A expectativa do governo brasileiro é de que ele mantenha uma política de continuidade nas relações bilaterais. A transição, porém, depende dos desdobramentos institucionais no Congresso paraguaio, que precisa analisar a renúncia.
Na avaliação de interlocutores do governo Lula, a saída de Peña representa o enfraquecimento de um dos principais aliados de Trump na América Latina. O Paraguai integra o Escudo das Américas, iniciativa lançada pelo presidente americano para tratar de segurança regional, e mantém alinhamento com Washington em votações e posicionamentos internacionais.
Apesar da leitura política, auxiliares do Planalto ponderam que a crise paraguaia não significa, necessariamente, um recuo definitivo da direita na região. O resultado apertado da eleição brasileira e a permanência de outros governos conservadores no continente são apontados como fatores que impedem uma conclusão mais ampla sobre o cenário político latino-americano.
A orientação brasileira é manter uma relação pragmática com o próximo governo paraguaio, independentemente de afinidades ideológicas. Entre as prioridades está a cooperação em temas como o combate ao crime organizado, além da preservação das relações comerciais e diplomáticas.
Crise do Ueno Bank levou à renúncia
A crise financeira que atingiu o Ueno Bank desencadeou uma onda de protestos e comprometeu a sustentação política de Santiago Peña. Na terça-feira, 3, o Banco Central do Paraguai determinou a intervenção na instituição após identificar que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido para operar.
O banco, controlado pelo Grupo Vázquez, afirmava ter cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a quase metade da população paraguaia. A intervenção deixou correntistas temporariamente sem acesso aos recursos depositados na instituição.
O escândalo ganhou dimensão política porque Peña manteve participação acionária na holding ligada ao banco até março de 2025. Durante seu governo, a instituição também recebeu volumes expressivos de recursos públicos, incluindo depósitos de órgãos estatais.
A oposição passou a acusar o governo de conflitos de interesse e falhas na fiscalização da instituição financeira. A crise também atingiu o Banco Central paraguaio, cujo então presidente, Carlos Carvallo, deixou o cargo após a intervenção na instituição.
Mesmo após o anúncio da renúncia de Peña, a Câmara dos Deputados aprovou o prosseguimento do processo de impeachment, encaminhando a acusação ao Senado. A tramitação pode ter consequências sobre a situação jurídica do ex-presidente e sua eventual condição de senador vitalício.
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