Ex-assessor nega monitoramento e diz que queria aproximar Moraes de Bolsonaro
Marcelo Câmara foi um dos réus do chamado "núcleo 2" da trama golpista interrogados no Supremo Tribunal Federal nesta quinta-feira
O coronel da reserva do Exército e ex-assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Marcelo Câmara, negou nesta quinta-feira, 24, que tenha monitorado o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no final de 2022. Segundo Câmara, que está preso, na realidade apenas repassou informações sobre trajetos do ministro ao tenente-coronel Mauro Cid, então ajudante de ordens de Bolsonaro, após as informações serem solicitadas por Cid.
E o objetivo do envio, acrescentou, era que os dados estivessem à disposição no caso de um eventual ajuste de agenda de Bolsonaro e possibilitar uma “aproximação” do então presidente com o magistrado.
Marcelo Câmara foi interrogado por videochamada, no STF, como um dos réus do “núcleo 2” da suposta tentativa de golpe para manter Bolsonaro no poder ocorrida no Brasil entre 2022 e 2023.
O interrogatório foi realizado pelo juiz auxiliar Rafael Henrique Tamai, do gabinete de Moraes.
Os réus do núcleo 2 respondem pelos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
O grupo é acusado de elaborar a chamada “minuta do golpe”, monitorar Alexandre de Moraes e articular ações com a Polícia Rodoviária Federal para dificultar o voto de eleitores do Nordeste nas eleições de 2022.
Os casos concretos
No interrogatório, ao ser questionado se negava que participou do monitoramento de autoridades, Câmara disse que “nunca participou”. “Eu nunca participei de monitoramento. Na verdade, quando me eram perguntadas algumas informações, eu passava as informações”, pontuou.
O juiz ressaltou que, pelos autos do processo, no dia 7 de dezembro de 2022, o réu teria encaminhado informações sobre o itinerário de deslocamento de Moraes a Mauro Cid e perguntou se ele se lembrava de ter feito isso e qual era o contexto.
Câmara respondeu que se recordava e que as informações constavam no convite para a diplomação do então presidente eleito, Lula (PT), emitido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A finalidade do envio dos dados a Cid, disse, “era deixar em condições para, se o presidente [Bolsonaro] mudasse de ideia, ele [Bolsonaro] participar da diplomação do presidente Lula”.
“Eu não fiz monitoramento. Se alguém quiser dizer que o que eu fiz foi monitoramento, eu acho que é um erro. Mas mesmo assim, se alguém quiser insistir ainda em falar que eu fiz isso, ele não era usado para nenhum meio ilícito, nenhuma ilegalidade. Eu simplesmente respondi à pergunta e, na quase totalidade das vezes, perguntado pelo tenente-coronel Mauro Cid”, afirmou.
Nos dias 16 e 21 de dezembro de 2022, Câmara voltou a passar informações de trajetos de Moraes para o ajudante de ordens. Na conversa da segunda data, Cid chegou a se referir a Moraes pelo codinome de “professora“.
“O codinome não tinha nenhum objetivo escuso, não”, disse Câmara no interrogatório. Segundo ele, codinomes fazem parte do linguajar militar e foi o tenente-coronel quem criou aquele para o magistrado.
E naquelas duas datas, afirmou, as informações foram repassadas a Cid com o objetivo de possibilitar uma “aproximação” do então presidente com o magistrado.
“A gente começa a observar que, talvez, o que foi falado como informação pode ter sido usado de uma forma diferente daquela que eu queria. Eu não queria aquilo ali. A minha intenção, como eu falei para o senhor, era estreitar, era ajuste de agenda, era possibilitar um encontro do ex-presidente com ministro, com pessoas que ele tinha contato”, declarou o réu também.
Minuta do golpe e plano Punhal Verde e Amarelo
Ainda no interrogatório, Câmara afirmou que não participou de nenhuma reunião para tratar da minuta do golpe de Estado.
Além disso, após o juiz questioná-lo sobre no que consistia o plano Punhal Verde e Amarelo, que visaria a sequestrar e assassinar autoridades, como Moraes e o então presidente eleito Lula, Câmara disse que sabia, no final de 2022, da existência de “um suposto plano que falava sobre ações contra autoridades, monitoramento e outras coisas”.
“Mas eu gostaria de frisar para vossa excelência que meu nome não consta nesse plano, eu não tinha contato nenhum com as pessoas que estão citadas nesse plano, eu não fazia parte de nenhum grupo, eu não fui a nenhuma reunião nem fui convidado para nenhuma, então eu não tenho participação nisso”, acrescentou o réu.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)