Dennys Xavier na Crusoé: Supremo escárnio
O cidadão sustenta o Estado e, depois, precisa comportar-se como alguém que pede um favor ao exigir explicações sobre uso do dinheiro público
A corrupção reserva alguma relação, mesmo tímida – quando não patologicamente praticada, é óbvio – com a vergonha.
Quem desvia dinheiro procura esconder os rastros. Quem favorece amigos prefere contratos difíceis de compreender. Quem participa de um esquema conta com a distância entre o ato e os olhos do público.
Existe nisso um reconhecimento, por assim dizer, “involuntário” de que alguma fronteira moral foi atravessada. Por mais cínico que seja o agente, ainda resta a preocupação de não ser visto.
O cenário se torna particularmente mais inquietante quando essa preocupação desaparece e, no lugar dela, surge o escárnio, a ostentação do mal a céu aberto.
O sorriso do burocrata diante de uma denúncia sem precedentes em termos de gravidade diz muito sobre o estado de uma instituição ou, se preferirem, de uma nação.
Ele conhece os corredores, os procedimentos, os prazos e a linguagem própria daquele ambiente. Está confortável…
O burocrata assistiu a escândalos surgirem com enorme repercussão e depois perderem espaço no interesse público.
Sabe como funciona o mais perverso dos ciclos. Aparecem denúncias, pedidos de explicação, entrevistas, notas oficiais, investigações.
Pouco depois, chegam os pareceres (cheios de citações em latim e linguajar técnico, úteis para disfarçar a substância vil), recursos, comissões e documentos extensos.
A responsabilidade começa a circular entre departamentos e competências até que se torne difícil encontrar uma pessoa concreta a quem perguntar: foi você?
Aqui a linguagem, universo do erro, presta um serviço precioso. Corrupção pode receber o nome de “irregularidade”. Desperdício agora é só “inconsistência”. Favorecimento aparece como “falha de governança”…
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Comentários (1)
Pedro Boer
05.09.2026 18:16Quando da abertura politica na "transição para a democracia" em 1.978 , antes de tomar posse na presidência da República do Brasil, o General Figueiredo disse: " É pra abrir mesmo.E quem quiser que não abra, eu prendo e arrebento. Não tenha dúvidas." E agora que já estamos na "transição para a ditadura judiciária" vamos chamar quem? O Chapolim Colorado? rs