Dennys Xavier na Crusoé: O escândalo do sofrimento
Proteger seres vulneráveis é afirmar um princípio de coerência ética
A comoção crescente que crimes contra animais têm provocado no Brasil pode ser compreendida como expressão de uma transformação moral profunda cuja formulação filosófica mais consistente, no campo contemporâneo, encontra-se na obra de Peter Singer.
Desde a publicação de Animal Liberation, em 1975, Singer consolidou uma das mais influentes teses da ética aplicada moderna: a ampliação do círculo de consideração moral para além das fronteiras da espécie humana, com fundamento na senciência (capacidade de experimentar sensações subjetivas, especialmente dor, sofrimento e prazer).
Singer não parte de sentimentalismo difuso nem de misticismo naturalista.
Sua posição está ancorada no utilitarismo clássico e se estrutura sobre um princípio claro: a igual consideração de interesses.
A tese central é que, sempre que um ser possui interesses (e o interesse fundamental em não sofrer é o mais elementar) esses interesses devem ser considerados moralmente, independentemente da espécie à qual o ser pertença.
A passagem clássica que estrutura sua argumentação é inequívoca:
“The question is not, ‘Can they reason?’ nor, ‘Can they talk?’ but, ‘Can they suffer?‘” (“A questão não é: ‘Eles podem raciocinar?’ nem: ‘Eles podem falar?’, mas: ‘Eles podem sofrer?’”).
Ao recolocar a pergunta nesses termos, Singer desloca o critério moral da racionalidade para a capacidade de experimentar dor e prazer. A dor é um mal em si, seja ela sentida por um humano adulto, por uma criança ou por um animal não humano.
Não se trata de afirmar igualdade absoluta entre todos os seres, mas de sustentar que sofrimentos comparáveis devem ter peso comparável na deliberação moral.
Ignorar o sofrimento animal apenas porque é animal…
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