Dennys Xavier na Crusoé: A visão profética de Orwell e o Brasil de hoje
O escritor não combatia apenas ditadores, mas os processos sutis pelos quais a verdade se desfaz e a consciência individual é diluída na massa
Tive o desprazer de assistir a uma entrevista do relator da PEC da Bandidagem (esse deveria ser o nome correto, pelo menos), o deputado Claudio Cajado (PP-Bahia), na qual as veias da desfaçatez saltavam do pescoço para tentar dar sustentação a um exercício retórico infinito, vexatório, diante do absurdo proposto.
O descolamento da realidade, as ficções argumentativas, a incapacidade de enrubescer… um quadro que imediatamente me trouxe George Orwell à mente.
George Orwell não escreveu apenas contra regimes totalitários: escreveu contra mecanismos.
Sua crítica vai além da denúncia ao autoritarismo declarado: ela atinge os sistemas invisíveis que destroem a liberdade a partir da linguagem, da moralidade pública e da pressão conformista do grupo.
Orwell não combatia apenas ditadores, mas os processos sutis pelos quais a verdade se desfaz, a linguagem se torna serva do poder e a consciência individual é diluída na massa.
Quando olhamos para o Brasil contemporâneo (com suas crises discursivas, sua cultura de cancelamento travestida de justiça social, sua moralidade ideológica em guerra contra a dúvida) a atualidade de Orwell é perturbadoramente precisa.
O totalitarismo, para Orwell, não é apenas uma degeneração de regime político. É uma forma de relação do indivíduo com a linguagem.
Em The Prevention of Literature, o autor afirma: “o inimigo natural da literatura é a mentira organizada”.
Ora, o que mais se organiza hoje no Brasil senão as mentiras convenientes, os slogans automáticos, os termos mágicos que evitam o pensamento e blindam a ignorância com o verniz da virtude?
Expressões como “discurso de ódio”, “democracia em risco”, “justiça social”, “violência simbólica” ou “desinformação” já não designam fatos objetivos, operam como instrumentos de controle emocional e exclusão retórica.
Tornaram-se armadilhas linguísticas para impedir o pensamento dissidente. Quem ousa perguntar o que exatamente significam já se torna, por isso mesmo, suspeito.
É aqui que Orwell atinge…
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